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Entenda os impactos da quarta onda de calor na Europa, que provoca incêndios florestais, mortes, rios em níveis críticos e temperaturas superiores a 40°C. Foto: Louisa Gouliamaki/Reuters

Com incêndios, mortes e rios em níveis críticos, Europa enfrenta sua quarta onda de calor desde maio; entenda as causas

Crise climática intensifica a quarta onda de calor na Europa, causando impactos severos em infraestrutura, rios e vegetação

Incêndios de grandes proporções, cidades esvaziadas às pressas, milhares de mortes acima do esperado e rios com água insuficiente para a produção de energia. A quarta onda de calor que atinge a Europa mostra que os efeitos das temperaturas extremas já avançam muito além dos termômetros.

Em diferentes partes do continente, as máximas devem alcançar ou superar os 40°C. Espanha, Portugal e França estão entre os países mais afetados neste início de semana, mas o calor deve se deslocar gradualmente para o centro e o leste europeu.

Na Espanha, os termômetros podem chegar a 42°C ou mais, principalmente no sul do país.

Em Portugal, áreas do centro, do norte e do sul enfrentam risco elevado de incêndios, enquanto a França prevê temperaturas de 40°C em regiões do oeste antes de o núcleo de calor avançar para leste.

Quarta onda de calor na Europa deve registrar altas temperaturas no Reino Unido

Até o Reino Unido deve registrar valores muito acima do comum. O sudeste da Inglaterra pode chegar aos 35°C, em um país onde muitas casas e prédios foram construídos para conservar calor durante o inverno e não para enfrentar dias seguidos de temperaturas elevadas.

Ao mesmo tempo, França e Espanha combatem incêndios que já deixaram mortos, destruíram imóveis e forçaram grandes operações de retirada. Partes de Portugal, da Irlanda e do Reino Unido também estão sob condições consideradas muito extremas para a propagação do fogo.

Por que as temperaturas estão subindo tanto?

A atual onda de calor é favorecida por uma área persistente de alta pressão sobre parte da Europa. Esse sistema dificulta a passagem de frentes frias, reduz a formação de nuvens e mantém o céu aberto durante vários dias.

O ar desce na atmosfera, aquece e fica ainda mais seco. Ao mesmo tempo, ventos transportam ar quente do Norte da África em direção ao continente europeu.

Sem chuva, o solo perde umidade rapidamente. Quando há água disponível, parte da energia do Sol é usada na evaporação. Em um terreno seco, uma parcela maior dessa energia aquece diretamente a superfície e o ar.

 RESUMINDO: alta pressão + ar quente + pouca chuva + solo seco = temperaturas mais altas e duradouras.

O calor também se reforça conforme os dias passam. A vegetação seca, a falta de nuvens e as noites abafadas impedem que cidades e áreas rurais se recuperem antes do novo pico de temperatura.

Ondas de calor sempre fizeram parte do clima europeu. O aquecimento global, no entanto, eleva a temperatura de partida e torna esses episódios mais frequentes, intensos e longos.

A Europa é, inclusive, o continente que se aquece mais rapidamente no planeta. Em 2025, quase toda a região registrou temperaturas acima da média, e estudos estimam que dezenas de milhares de pessoas morram todos os anos por causas associadas ao calor.

“A onda de calor brutal na Europa carrega as marcas da crise climática por toda parte – é o preço mais recente a pagar pela poluição dos combustíveis fósseis que assola nosso planeta”, afirmou recentemente o secretário-executivo da ONU para Mudança Climática, Simon Stiell.

“Escolas fechando, pessoas vulneráveis morrendo e economias sofrendo: é assim que a crise climática se apresenta na prática”, declarou.

Por que o risco de incêndios está tão alto na quarta onda de calor da Europa?

O calor não provoca sozinho o início de todos os incêndios. Muitos focos surgem por ação humana, acidentes ou falhas em redes elétricas.

As temperaturas elevadas e a falta de chuva, porém, retiram a umidade de folhas, galhos e pastagens.

Dessa forma, a vegetação seca passa a funcionar como combustível, permitindo que uma pequena chama avance rapidamente.

O vento também espalha brasas para áreas distantes e dificulta o trabalho dos bombeiros. Quando o incêndio cresce muito, ele também pode formar grandes colunas de calor e fumaça, capazes de alterar a circulação do ar e favorecer novos focos.

Na França, a combinação de calor e vegetação seca fez aumentar o número de regiões sob risco elevado de incêndios. No sudoeste do país e no norte da Espanha, algumas áreas enfrentam a categoria mais alta de perigo.

Portugal também colocou amplas regiões sob o nível máximo de risco. Mesmo países menos associados a grandes incêndios, como Reino Unido e Irlanda, aparecem entre as áreas que exigem atenção.

Na Escócia, centenas de bombeiros, funcionários e voluntários foram mobilizados para combater um grande incêndio próximo ao Parque Nacional de Cairngorms. Moradores só puderam voltar para casa depois de uma melhora no tempo e da redução das chamas visíveis.

Na Grécia, o primeiro-ministro Kyriakos Mitsotakis afirmou que o país teria “dias difíceis pela frente” diante da combinação de calor, vento e vegetação seca.

Como foram as últimas ondas de calor?

A primeira ocorreu ainda na primavera, no fim daquele mês, e já provocou recordes. Portugal registrou 40,3°C em Mora, enquanto França e Reino Unido também tiveram temperaturas muito acima do normal para o período.

A segunda onda, entre meados e o fim de junho, foi a mais intensa da sequência. Vários países registraram máximas históricas ou muito próximas dos recordes.

Outro período prolongado de calor atingiu principalmente a França no início e em meados de julho. A quarta onda começou no fim do mês e avançou sobre o oeste, o centro e o sul do continente.

Veja a sequência:

  •  Fim de maio: calor recorde ainda durante a primavera;
  • Meados e fim de junho: episódio mais intenso;
  •  Início e meados de julho: novo período prolongado de temperaturas elevadas;
  •  Fim de julho e início de agosto: quarta onda.

A contagem, contudo, não é oficial para toda a Europa. Cada serviço meteorológico usa critérios próprios, e os episódios não começam nem terminam ao mesmo tempo em todos os países.

Como também há diferentes formas de definir as estações, as datas podem variar. Pelo calendário astronômico, o verão começou em 21 de junho. Para a meteorologia, porém, a estação vai de 1º de junho a 31 de agosto.

Idosos, crianças, pessoas com doenças crônicas, trabalhadores ao ar livre e moradores de casas pouco ventiladas estão entre os grupos mais vulneráveis.

As noites quentes são especialmente perigosas. Quando a temperatura não cai após o pôr do sol, o organismo não consegue se recuperar do estresse acumulado durante o dia.

Em áreas urbanas, concreto, vidro e asfalto armazenam calor e o liberam lentamente durante a madrugada. Isso faz com que bairros densamente construídos permaneçam mais quentes que regiões próximas.

Muitas casas, escolas e empresas da Europa foram projetadas para um clima mais frio. No Reino Unido, diversos edifícios foram construídos para reter calor, o que dificulta o resfriamento durante uma onda.

Construções modernas ampliam o desafio

Mesmo em cidades do Mediterrâneo, onde construções antigas usam pátios internos, paredes espessas e fachadas claras para reduzir o calor, prédios mais recentes nem sempre seguem essas soluções.

A instalação de aparelhos de ar-condicionado também não resolve todo o problema. O custo da energia limita o acesso em vários países, e o aumento repentino do consumo pressiona as redes elétricas justamente nos dias mais quentes.

Justamente por isso, o diretor regional da Organização Mundial da Saúde para a Europa, Hans Kluge, afirmou que os governos precisam corrigir falhas antes dos próximos episódios e preparar os sistemas de saúde para agir antes que o calor atinja níveis perigosos.

“O trabalho agora ocorre em duas frentes: corrigir o que falhou nas últimas semanas antes que a próxima onda de calor chegue e construir sistemas de saúde que não apenas reajam ao calor extremo, mas estejam preparados para ele”, declarou.

Como o calor afeta rios, energia e transportes?

A combinação de temperaturas elevadas e pouca chuva aumenta a evaporação e reduz a água que chega a rios e reservatórios.

Usinas hidrelétricas produzem menos energia quando a vazão diminui. Centrais nucleares e térmicas também podem precisar reduzir a geração quando falta água para resfriar equipamentos ou quando a temperatura dos rios fica alta demais.

Ao mesmo tempo, o consumo de eletricidade sobe com o uso de ventiladores e aparelhos de ar-condicionado. O sistema passa a enfrentar, portanto, maior demanda e menor capacidade de produção em algumas regiões.

O transporte também sofre. Trilhos ferroviários podem se expandir e deformar, obrigando os trens a reduzir a velocidade. Pontes móveis podem ficar presas com a dilatação do metal, enquanto estradas sofrem com o amolecimento do asfalto ou o deslocamento de placas de concreto.

Por isso, os impactos não desaparecem assim que os termômetros caem. Rios e reservatórios podem levar semanas ou meses para recuperar seus níveis, e a vegetação permanece seca e vulnerável a novos incêndios.

No Danúbio, que atravessa dez países, a redução da água já prejudica a navegação, o turismo e a produção de energia na Hungria e na Romênia.

O Reno, rota importante para o transporte de cargas entre a Suíça, a Alemanha e a Holanda, também está mais baixo. Na Itália, a queda do nível do rio Pó preocupa agricultores e autoridades por causa dos impactos na irrigação e no abastecimento.

Onde o calor deve aumentar nos próximos dias?

O oeste europeu concentra os maiores extremos neste início de semana, com temperaturas muito elevadas na Espanha, em Portugal e na França.

Na sequência, o núcleo mais quente deve avançar em direção ao centro e ao leste da França e alcançar outras partes do continente. Áreas da Itália, dos Bálcãs e do leste europeu também podem enfrentar calor mais intenso.

No Reino Unido, o pico deve ocorrer no sudeste da Inglaterra, com máximas próximas dos 35°C. Para a região, trata-se de um valor incomum e capaz de aumentar o risco à saúde e de problemas na infraestrutura.

As previsões ainda podem mudar, principalmente para períodos superiores a cinco ou seis dias. O cenário, porém, indica que o calor continuará atingindo diferentes regiões da Europa ao longo da semana.

 Fonte: g1