Intervenção em banco digital no Paraguai bloqueia contas de milhões de usuários e paralisa pagamentos em redes varejistas do país
A quebra do banco digital Ueno, no Paraguai, deixou milhões de clientes com contas bloqueadas e provocou uma onda de protestos no país. A instituição financeira tem 2,9 milhões de clientes, o equivalente a cerca de 40% da população paraguaia, e entrou em processo de resolução após o Banco Central identificar problemas financeiros. A crise também afetou o comércio, levou à prisão de oito pessoas e provocou renúncias na autoridade monetária.
O bloqueio das contas começou após a intervenção do Banco Central paraguaio, anunciada nesta semana. Desde então, clientes enfrentam filas nas agências na tentativa de recuperar o dinheiro depositado na instituição.
Banco digital usado por 40% da população do Paraguai quebra e bloqueia contas
Entre os afetados estão aproximadamente 32 mil aposentados e pensionistas, que recebiam benefícios pelo Ueno Bank e ficaram temporariamente sem acesso aos valores.
Por outro lado, a situação também atingiu consumidores e comerciantes. Antes da crise, o banco processava quase 3 milhões de transações por dia, sendo responsável por cerca de dois terços dos pagamentos eletrônicos realizados nas grandes redes varejistas do país.
Clientes relatam desespero após bloqueio de contas
A impossibilidade de movimentar o próprio dinheiro levou centenas de paraguaios às ruas de Assunção, capital do país. Manifestantes exigiram a devolução imediata dos depósitos e cobraram providências do governo.
Entre os relatos está o de Marcelino Vergara, de 68 anos, que afirmou à agência AFP ter perdido o acesso às economias acumuladas ao longo da vida. Segundo ele, restaram apenas 8 mil guaranis disponíveis, valor equivalente a aproximadamente US$ 1.
A estudante de enfermagem Deisy Asva, de 20 anos, também contou que teve suas economias bloqueadas. Com a mensalidade da faculdade próxima do vencimento, ela afirmou que precisaria recorrer à ajuda financeira da família.
Os protestos ocorreram no centro de Assunção e nas proximidades da residência oficial do presidente Santiago Peña. Em uma das manifestações, houve confronto entre policiais e pessoas que tentavam avançar em direção ao Congresso Nacional.
Quando os clientes vão receber o dinheiro?
O Paraguai possui um fundo de garantia de depósitos semelhante ao sistema brasileiro. Pelas regras existentes, a cobertura chega a 75 salários mínimos paraguaios, equivalentes a aproximadamente 228,3 milhões de guaranis.
O prazo previsto para a devolução dos recursos era de até 15 dias, mas a dimensão da crise levou o Congresso a discutir uma mudança emergencial na legislação.
O Senado paraguaio aprovou uma proposta para antecipar parte dos pagamentos para até 24 horas e elevar o adiantamento a 121 milhões de guaranis, equivalentes a cerca de US$ 19,8 mil.
Porém, até ontem (4) a proposta ainda não havia sido concluída. A Câmara dos Deputados solicitou ajustes no texto, que deveria retornar para nova análise dos senadores.
Enquanto isso, o Banco Central anunciou a previsão de um primeiro pagamento de até 10 milhões de guaranis por depositante, aproximadamente R$ 9,1 mil.
Quebra de banco provoca oito prisões
Além do bloqueio das contas, a crise desencadeou uma investigação sobre a administração do Ueno Bank e suas relações empresariais.
Oito pessoas foram presas, incluindo dirigentes da instituição financeira e executivos de empresas ligadas ao Grupo Vázquez, controlador do banco.
Ademais, o episódio também provocou mudanças no comando do Banco Central paraguaio. O presidente da instituição, Carlos Carvallo, e outros dois diretores deixaram os cargos.
O presidente Santiago Peña nomeou o economista Raúl Vera Bogado para comandar a autoridade monetária e afirmou que o sistema financeiro do país possui mecanismos de proteção aos depositantes.
Como um dos maiores bancos do Paraguai entrou em crise?
O Ueno Bank cresceu rapidamente nos últimos anos, impulsionado pela expansão dos serviços digitais. Desde que passou a operar como banco, em dezembro de 2023, conquistou milhões de clientes e se tornou uma das principais instituições financeiras paraguaias.
Em setembro de 2026, o banco já havia emitido quase 1,1 milhão de cartões de crédito. Por outro lado, a instituição também concentrava depósitos de clientes e recursos de órgãos públicos.
Segundo informações divulgadas pelo Banco Central paraguaio, o processo de resolução foi iniciado após a identificação de insuficiência de capital para sustentar as operações da instituição.
Por fim, o caso agora é investigado pelo Ministério Público do Paraguai. Enquanto as autoridades apuram possíveis irregularidades, clientes aguardam a liberação dos recursos bloqueados e uma solução para a crise que atingiu uma parcela expressiva da população do país.
Fonte: o globo





