Segundo o diretor-presidente da Anac, a agência reguladora foi enganada pela Voepass por meio de relatórios e documentos falsificados sobre manutenção
O diretor-presidente da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), Álvaro Faierstein, afirmou que a Voepass mantinha práticas fraudulentas e deixou claro que a agência foi enganada ao receber informações falsas sobre reparos em suas aeronaves que nunca foram realizados. A queda de um avião da empresa em 9 de agosto de 2024 provocou a morte de 62 pessoas que iam de Cascavel (PR) a Guarulhos (SP).
Muitas das informações que a empresa nos enviava eram informações falsas. Eu vou citar um exemplo: na operação assistida, um fiscal da Anac chamava o mecânico da Voepass e falava assim: “Ó, você tem que trocar essa peça aqui”. “Quando o fiscal ia lá ver, via que tinha o documento da troca, que ele tinha reportado a troca, mas que, na prática, não tinha trocado nada”, disse Faierstein, em entrevista ao Fantástico, da TV Globo, exibida (26).
O diretor-presidente chegou a admitir ao Fantástico que a Anac foi enganada pela Voepass
“Eu posso dizer que sim. Muito sim. O nosso time técnico, o nosso corpo técnico, fez análises baseadas em documentos que não eram documentos verdadeiros”, afirmou.
Em nota divulgada (23), após a divulgação do relatório final sobre o acidente feito pelo Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa), órgão da Força Aérea Brasileira (FAB), a Voepass alegou que, ao longo de três décadas, “sempre adotou procedimentos sérios de segurança, capacitação e orientação de tripulação.”
A FAB concluiu que a queda do avião foi causada por um conjunto de falhas da empresa, da aeronave, dos pilotos e da Anac. A investigação durou quase dois anos e apontou 19 fatores que influenciaram na queda do avião, sendo 15 que contribuíram diretamente para o acidente. Os demais foram classificados como de contribuição indeterminada.
5. Coordenação de cabine:
Houve gerenciamento inadequado das tarefas de cada tripulante, falha na comunicação e a inobservância de normas operacionais caracterizaram a ineficiência na coordenação de cabine.
6. Cultura de grupo do trabalho:
O aparecimento frequente de avisos e alertas gerou complacência no grupo de pilotos da empresa. Culminando com redução da vigilância e relaxamento diante da alta repetitividade. O grupo de pilotos da empresa tendia a subestimar os alertas/avisos, apoiados na falsa sensação de segurança justificada pela experiência pregressa.
7. Cultura organizacional:
Predominava na empresa a informalidade nas interações entre os seus membros, o que perpassava os diferentes níveis hierárquicos e setores. A proximidade e a informalidade abriam espaço para improvisos e permissividade, acarretando a flexibilização de regras e a degradação da cultura de segurança de voo. As percepções coletivas dos integrantes da empresa refletiam valores centrais equivocados e baixa adesão aos princípios de segurança de voo. A existência de regras informais, institucionalizadas informalmente, resultou na fragilização da cultura de segurança, acarretando a operação do PS-VPB abaixo dos níveis mínimos de segurança aceitáveis.
8. Julgamento de pilotagem:
Em nenhum momento do voo os pilotos solicitaram descida imediata ou declararam situação de emergência em função da condição de acúmulo de gelo e perda de performance. Essa omissão, associada à não execução das ações previstas nos procedimentos operacionais diante dos avisos/alertas de degradação de performance emitidos pela aeronave, indicou que a tripulação de voo realizou uma avaliação inadequada de parâmetros relacionados à operação segura da aeronave.
9. Manutenção da aeronave:
A ausência de registro formal no Diário de Bordo, após o surgimento de falhas em voo, em especial no que tange ao mau funcionamento do sistema de degelo nos voos que antecederam ao acidente, impediu que os setores técnicos e operacionais da empresa pudessem aplicar medidas mitigadoras.
10. Percepção:
Foram identificados prejuízos na capacidade dos tripulantes de voo de reconhecer, compreender e projetar as sensações provenientes dos estímulos internos e externos ao ambiente da operação, como as informações meteorológicas de formação de gelo severo, indicações de perda de performance e avisos/alertas do monitor de performance.
11. Planejamento de voo:
O planejamento não considerou todas as condições restritivas para o voo na rota pretendida, permitindo a operação abaixo dos níveis mínimos de segurança aceitáveis. Essa lacuna contribuiu para a manutenção da aeronave em um nível de voo suscetível ao acúmulo de gelo, culminando na degradação progressiva da performance e na construção do cenário da ocorrência.
12. Processo decisório:
A decisão de realizar o voo de cruzeiro em nível que havia previsão de formação de gelo severo evidenciou dificuldades no processo de análise e escolha de alternativas por parte da tripulação de voo. Tais dificuldades podem ter se originado de vieses oriundos de uma cultura organizacional que abria espaço para os improvisos e permissividade. Desse modo, acarretando a flexibilização de regras e a degradação da cultura de segurança de voo.
13. Processos organizacionais:
O subaproveitamento das informações disponibilizadas, especialmente as relacionadas à degradação de performance por acúmulo de gelo. Associado à ausência de assessoria em tempo real relacionada às condições meteorológicas na rota aos pilotos, demonstrou que os processos organizacionais não estavam consolidados como instrumentos eficazes de mitigação de riscos. Esse conjunto de fragilidades favoreceu a adoção de uma conduta passiva diante dos alertas e inibiu ações estruturadas previstas nos procedimentos operacionais.
14. Supervisão gerencial:
A ausência de uma supervisão gerencial eficaz permitiu que as equipes adotassem práticas informais nas operações aéreas e na manutenção de aeronaves. Esse cenário, portanto, fez com que os responsáveis normalizassem a aceitação de desvios, passassem a menosprezar os alertas da aeronave e reduzissem a percepção dos riscos envolvidos naquele contexto operacional. Como consequência, as equipes deixaram de aplicar medidas preventivas mais robustas e passaram a realizar operações com níveis de segurança abaixo dos mínimos aceitáveis.
15. Atuação da Anac:
As auditorias e inspeções realizadas pela Anac no operador antes do acidente revelaram diversas não conformidades técnicas e procedimentais relacionadas à manutenção das aeronaves, à rastreabilidade de componentes, ao descumprimento das condições de lista de equipamentos mínimos e à prática recorrente de reporte informal de panes ou não reporte. Os achados da Comissão de Investigação indicaram que os sinais que identificavam perigos, degradação das condições técnicas e condições latentes antes do acidente não foram capazes de, analisados no âmbito do processo de gerenciamento de risco da Anac, auxiliar nas tomadas de decisões estratégicas necessárias à mitigação e ao controle dos riscos no ambiente operacional por ela regulado e fiscalizado.
Dessa forma, pode-se concluir que os meios de registro, tratamento e monitoramento de dados e informações relativas aos perigos, com a finalidade de gerenciar os riscos, ainda estavam em fase de amadurecimento. Permitindo a continuidade das operações da empresa, apesar das degradações dos níveis de segurança.
Fonte: o dia