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ALEMS avança na divulgação da campanha Setembro Amarelo. Até agosto, 243 pessoas tiraram a própria vida em MS Foto: ALEMS

ALEMS SETEMBRO AMARELO: A cada dia, uma pessoa se suicida em MS

ALEMS avança na divulgação da campanha Setembro Amarelo

A ALEMS está na luta para divulgar a campanha Setembro Amarelo. Uma dor psíquica profunda, sem nome, sem lugar, sem porquê, insuportável, sem aparente solução. O ato seguinte: o suicídio. Essa sequência, que não é absoluta, resultou, neste ano, na morte de 243 pessoas em Mato Grosso do Sul até agosto. O número é o mesmo de dias transcorridos do início do ano ao fim do mês passado. Em média, portanto, uma pessoa morreu por suicídio a cada dia no estado. O problema, considerado uma grave emergência de saúde pública, recebe atenção ainda maior neste mês, devido ao Setembro Amarelo de Prevenção ao Suicídio.

A campanha foi aprovada pela Assembleia Legislativa de Mato Grosso do Sul (ALEMS) há pouco mais de dez anos e está prevista na Lei 4.777/2015. O mês foi escolhido, por causa do Dia Mundial da Prevenção do Suicídio, celebrado nesta quinta-feira, 10 de setembro. A cor, símbolo da campanha, remete à história de Mike Emme, jovem estadunidense de 17 anos que, em 1994, tirou a própria vida. Ele gostava muito de seu carro, um Ford Mustang amarelo, que havia restaurado. Em seu velório, amigos e familiares distribuíram fitas amarelas.

Ações preventivas

Todos os anos, neste mês, são fortalecidas as ações preventivas ao suicídio. As estatísticas justificam a urgência e a necessidade das mobilizações. Dados da Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp) mostram que neste ano, até agosto, 243 pessoas se suicidaram em Mato Grosso do Sul. O número equivale a uma morte por dia. Essa média continua neste mês – na primeira semana de setembro, sete pessoas tiraram a própria vida no estado.

Os homens são maioria: 189 casos. É mais de três vezes acima ao número de mulheres (54). Em relação à faixa etária, morreram, até o fim de agosto, 126 adultos (51%), 90 jovens e adolescentes  (37%) e 27 idosos (11%).

A incidência é relativamente alta neste ano. Na comparação com o mesmo período (janeiro a agosto) dos anos anteriores, o número de 2026 é o maior da série histórica do Sistema de Gestão Operacional (SIGO), da Polícia Civil, desde 2016. A quantidade de suicídios também supera o de mortes no trânsito – de janeiro a agosto, morreram 232 pessoas em acidentes de trânsito em Mato Grosso do Sul, 11 a menos que o total de suicídios em igual intervalo.

O que é importante entender

“Quem tenta o suicídio não busca o fim da vida em si, mas sim o encerramento imediato de uma dor psíquica que parece insuportável, difícil de nomear e sem perspectiva de solução”, explica a psicóloga e psicanalista Giovana Guzzo Freire. “A vida humana é sustentada por histórias e sentidos construídos subjetivamente e, por isso, para entender os motivos que levam a pessoa a tirar a própria vida, devem ser investigadas as possibilidades das causas que originaram essa dor emocional, a perda de referências simbólicas, planejamentos e propósitos”, acrescenta.

Não existe fator nem fato isolado, pois o suicídio decorre de contextos complexos e interrelacionados. Além disso, o problema não se restringe a situações do presente. Nesse contexto, a psicanalista afirma que é necessário investigar, singularmente, o histórico sobre a interação entre diversos fatores. Por conseguinte, entram nessa análise elementos psicológicos, familiares, biológicos, sociais, econômicos, culturais e o eventual abuso de substâncias.

Ademais, a especialista completa que o suicídio não é causado por um fato isolado ou recente. Consequentemente, os problemas atuais funcionam apenas como disparadores para uma crise. Por fim, essa condição originou-se no acúmulo de dores antigas e complexas ao longo do tempo.

Sinais de alerta

A identificação dos sinais de alerta exige atenção contínua e sensibilidade aos detalhes do comportamento. Conforme orienta Giovana, quando três ou mais comportamentos, sintomas ou sentimentos ocorrem de forma simultânea por mais de duas semanas – provocando prejuízos emocionais severos nas esferas pessoal, familiar, acadêmica ou profissional –, torna-se imprescindível buscar avaliação psicológica e psiquiátrica. Entre os principais indicativos estão o isolamento social, alterações bruscas no sono ou na alimentação, crises frequentes de ansiedade, desinteresse geral e menções diretas ou veladas à morte.

Também é preciso atenção, conforme ressalta a psicanalista, a atitudes atípicas, como a busca repentina por resolver pendências financeiras, doar pertences valiosos ou organizar um testamento, também devem acender o alerta. Diante de quadros de angústia intensa, a desorganização cognitiva pode levar a pessoa a expressar constante desesperança, impotência ou percepção de inadequação, o que exige uma intervenção imediata da rede de apoio e de profissionais de saúde mental.

Não julgar, não dizer “o quanto a vida é bela”; e, sim, escutar

A prevenção ao suicídio passa também pelo cuidado de se evitar julgamentos morais e “conselhos” simplistas. O fundamental, de acordo com Giovana Freire, é saber ouvir.

“O julgamento moral interdita o principal recurso de prevenção: a possibilidade de falar abertamente sobre a dor e ser acolhido”, adverte a psicóloga. “Quando a sociedade, a comunidade ou a família duvidam do relato de sofrimento, a dor existencial é amplificada, empurrando o sujeito para o isolamento e o desamparo”, alerta. Por isso, o suicídio jamais deve ser visto como fraqueza moral ou falta de amor-próprio.

A psicóloga também orientar ao cuidado com “falas motivacionais” que tendem a produzir efeitos contrários do que se pretende. “O uso de argumentos prontos ou conselhos motivacionais simplistas como ‘a vida é bela e você é tão bonito e inteligente, não faça isso’ gera um efeito oposto ao almejado”, pontua Giovana. Nessas horas, atributos de beleza ou inteligência não estão em questão para o sujeito em crise, e abordagens desse tipo apenas intensificam a sensação de não ser compreendido.

Melhor que falar é ouvir. Em vez de conselhos diretivos ou julgamentos, quem pretende ajudar precisa focar na escuta empática. “Palavras simples, sinceras e de suporte, tais como: ‘estou aqui para te ouvir’, ‘pode falar sobre a sua dor’ e ‘você é importante para mim’, trazem segurança”, explica a profissional. A orientação clínica central para o acolhimento de urgência envolve manter a calma e sustentar a presença.

Na rede

O mundo tecnológico, com fluxos de informações descentralizadas e velozes, abarca características que podem agravar a dor psíquica. Além disso, a psicóloga analisa que o ambiente digital criou formas de alimentar o próprio sofrimento emocional. Nesse contexto, as redes sociais capturam o sujeito ao exibirem imagens de vidas perfeitas.

Assim, isso gera a ilusão de que todos estão bem, exceto ele, fomentando sentimentos de comparação e inadequação. Ademais, a aceleração constante do ambiente virtual também impacta a qualidade das relações humanas. Consequentemente, a especialista observa que a velocidade das interações virtuais tende a substituir conversas profundas por reações efêmeras e superficiais.

Outras leis

Além da Lei 4.777/2015, que instituiu oficialmente no calendário de Mato Grosso do Sul o Setembro Amarelo, a Assembleia Legislativa aprovou outras normativas que fortalece

m a campanha. É o caso da Lei 5.483/2019, que criou a “Semana de Prevenção e Combate à Violência Autoprovocada: Automutilação e o Suicídio”, realizada, anualmente, em setembro com início no segundo domingo do mês.

Mais recentemente, o Parlamento aprovou a Lei 6.449/2025, que instituiu a campanha “Setembro Amarelo vai à Escola”. Conforme essa lei, a iniciativa visa “sensibilizar e incentivar a realização de atividades educacionais sobre a prevenção à automutilação e ao suicídio”. Durante todo o mês, as escolas recebem estímulo para realizar palestras, encontros, panfletagem, seminários, e outras atividades de prevenção ao suicídio.

Livro digital

Primeiramente, o suicídio se relaciona diretamente a questões de saúde mental. Além disso, é preciso falar sobre isso, mesmo sendo um tema sensível. Nesse contexto, o desafio torna-se ainda maior se a interação envolver crianças e adolescentes.

Por conseguinte, como material de apoio a educadores e outros adultos que entendem a importância dessa conversa, a Comunicação da ALEMS produziu o livro digital “Para onde vai o buraco quando o tatu fica feliz?”. Ademais, numa linguagem voltada ao público infantojuvenil, a obra usa o buraco como metáfora das ausências, do isolamento e da depressão.

Por fim, o material faz parte da coleção “Cidadania é o bicho”, que aborda diversos assuntos usando personagens da fauna pantaneira.

Saiba onde buscar ajuda

Se você ou alguém que você conhece está passando por um momento difícil, com sentimentos de desamparo, ansiedade ou ideação suicida, saiba que há apoio gratuito e sigiloso disponível:

CVV (Centro de Valorização da Vida): Atendimento voluntário, gratuito e sob total sigilo.

Telefone: 188 (ligação gratuita, disponível 24 horas por dia, todos os dias).

Online: Atendimento via chat e e-mail no site www.cvv.org.br.

CAPS (Centros de Atenção Psicossocial): Unidades públicas de saúde mental que oferecem acolhimento e tratamento especializado pelo SUS, de porta aberta (sem necessidade de agendamento prévio). Procure o CAPS da sua região ou a Unidade Básica de Saúde (UBS/USF) mais próxima.

Casos de Urgência e Emergência:

SAMU: Ligue 192 (em casos de risco iminente ou crises graves).

UPAs e ProntosSocorros: Atendimento médico de urgência disponível 24 horas.

Fonte: ALEMS