Cota atingida na China força pecuaristas a buscarem novos mercados para a carne brasileira
O alcance do limite de exportações de carne bovina para a China preocupa pecuaristas, que consideram inviável a sobretaxa de 55% sobre novas vendas. Agora, além de reduzir abates e dar férias coletivas, eles buscam novos mercados para distribuir a produção, embora admitam que nenhum tenha capacidade para absorver o volume destinado ao principal comprador da carne brasileira.
Sem China, pecuaristas tiram férias e buscam novos mercados para a carne; entenda a crise
Brasil atinge a cota de exportação de carnes para a China. Os dois países alcançaram, em menos de sete meses, o limite de 1,106 milhão de toneladas previsto no acordo comercial. A partir de agora, novas exportações passam a pagar uma sobretaxa de 55%, que se soma à tarifa de 12% já aplicada, elevando a carga total para 67%.
“Existe um período, de 40 a 60 dias, entre a saída do Brasil, o embarque no navio e a chegada na China. Até lá, essa cota estará atingida. ”
Roberto Perosa, presidente da Abiec (Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes)
Cota é 35% menor do que o total enviado à China em 2025
A China, maior importador da carne bovina brasileira, implementou uma cota de 1,1 milhão de toneladas livre da tarifa mais alta de 55% para o produto do Brasil este ano para proteger sua produção interna. No ano passado, o Brasil exportou 1,68 milhão de toneladas para o mercado chinês. Ademais, o volume equivale a 48% do total de carne bovina vendida pelo Brasil.
China limitou importações para estimular a produção interna
A determinação foi comunicada pelo Ministério do Comércio da China e passou a valer neste ano, de acordo com a participação de cada país nas exportações para o mercado chinês. Os limites implementados até 2028 também atingiram Argentina (511 mil toneladas), Uruguai (324 mil toneladas), Nova Zelândia (206 mil toneladas), Austrália (205 mil toneladas) e Estados Unidos (164 mil toneladas).
“A China faz falta, porque é um grande mercado para o Brasil e leva, em média, 130 mil toneladas mensais [de carne].” O segundo maior mercado, que são os Estados Unidos, leva 40 [mil toneladas].”
Lygia Pimentel, diretora-executiva da Agrifatto
Sobretaxa de 55% para novas vendas é vista como inviável
Perosa avalia que o governo chinês adicionará a cobrança extra à taxa de 12% vigente, o que dificultará a exportação da maioria dos cortes brasileiros. “A tarifa passa para 67%, que é um valor impraticável”, afirma ele.
“Pode ser que exista um ou outro corte específico que ainda consiga ser exportado com uma tarifa dessa, mas é uma quantidade muito pequena perto do volume que a gente exportava para a China.”
Roberto Perosa
Produtores recorrem a alternativas para limitar prejuízos
Entre as ações tomadas, aparecem a redução dos abates e a concessão de férias coletivas em algumas plantas frigoríficas com produção voltada à China. “Cada decisão é única das empresas, de acordo com a singularidade do negócio de cada uma”, avalia o presidente da Abiec.
Novos mercados
Setor busca novos compradores para reduzir perdas. Os exportadores miram mercados como Estados Unidos, Vietnã, Indonésia, Uruguai e Argentina para escoar a produção.
Novos compradores não compensam a perda da China. Ainda que o deslocamento seja direcionado a outros parceiros, as compras são consideradas impossíveis de suprir a saída das vendas para Pequim. “Não existe, no mundo, um outro cliente com esse tamanho e esse apetite esperando na fila”, diz Theo Paul Santana, especialista em negócios Brasil-China.
Possível “arbitragem” para as negociações pode virar realidade. Lygia Pimentel, da Agrifatto, empresa de consultoria em agronegócio, explica que outros países podem comprar a carne brasileira mais barata para consumo próprio e exportar a produção local deles para a China.
Impacto nos preços e no bolso
Excesso de oferta pode reduzir o preço da carne. Como resultado da oferta maior nos açougues, a tendência é que os preços fiquem mais baixos momentaneamente. “A gente vai tentar escoar essa carne no mercado doméstico a preços mais baixos, porque esse boi custa para ser mantido daqui para frente”, diz Pimentel.
Retorno das vendas para a China vai estimular retomada dos preços. Pimentel afirma que a China deve retomar os embarques de carne brasileira em novembro, o que reduzirá novamente a oferta interna e deixará o produto mais caro nos açougues nacionais.
“Vai ser uma gangorra. Agora que eu não tenho China, redireciono [as carnes] para o mercado doméstico e os preços recuam. Depois, eu volto com a China e vou correndo para voltar a fornecer para eles, e os preços sobem de novo. ”
Lygia Pimentel
Por fim, a Arroba do boi gordo recua após atingir maior patamar desde 1997. Depois de marcar US$ 73,58 em 20 de abril, maior valor da série coletada pelo Cepea (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada) desde 1997, o valor da arroba de 15 kg da proteína recuou 13,6%, para US$ 63,59. No acumulado deste ano, a cotação registra alta de 9,3%.
Fonte: uol





