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Produtores seguram milho em MS e metade não foi negociada. A estratégia é postergar as vendas e aguardar melhores condições de mercado Foto: Aprosoja-MS

Produtor rural segura milho e vendas chegam a só 50% após supersafra em MS

Produtores seguram milho em MS e metade não foi negociada

O Estado de MS está encerrando uma das maiores safras de milho de sua história, mas o cereal ainda não saiu das mãos dos produtores, ou seja, com 99,5% da área colhida, apenas metade da produção havia sido negociada até o dia 21. Os dados são do levantamento do Boletim Casa Rural, elaborado pela Associação dos Produtores de Soja de Mato Grosso do Sul (Aprosoja-MS).

O movimento ocorre justamente em um momento de valorização da commodity, o que reforça a estratégia de parte dos agricultores de postergar as vendas e aguardar melhores condições de mercado.

De acordo com o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), a postura reduz a disponibilidade de lotes para negociação e contribui para a sustentação dos preços no mercado interno. O comportamento das cotações no exterior também favorece esse cenário.

A segunda safra 2025/2026 está estimada em 16,254 milhões de toneladas, volume 16,7% superior ao do ciclo anterior. A produtividade média chegou a 122,79 sacas por hectare, conforme o boletim semanal da Casa Rural. O levantamento, realizado pelo Sistema de Informações Geográficas do Agronegócio (Siga MS), já alcançou 18% da área para revisão da produtividade.

Ao mesmo tempo, a saca de 60 kg alcançou R$ 54,83 no dia 21, alta de 0,92% em apenas uma semana. Na média entre os dias 14 e 21 deste mês, ficou em R$ 54,40, 6,4% acima dos R$ 51,13 registrados no mesmo período de 2025. Em relação a agosto, quando a cotação média era de R$ 49,17, a valorização chega a 11,5%.

Conforme dados da Granos Corretora, na sexta-feira, a saca era cotada a R$ 55,17, valor 7,7% acima da cotação de R$ 51,19 aferida na mesma data do ano passado.

Vendas

Os dados indicam que o produtor não está simplesmente deixando de vender. A comercialização avançou 6,5 pontos porcentuais desde o levantamento de 27 de agosto, quando 43,5% da safra havia sido negociada. Ainda assim, o porcentual atual está 2,5 pontos abaixo do registrado no mesmo período de 2025.

Ainda conforme os dados da Granos Corretora, o mercado vem pagando mais pelo cereal. Em Dourados, a cotação chegou a R$ 56 por saca. Chapadão do Sul, Maracaju e São Gabriel do Oeste registraram R$ 55, enquanto Campo Grande e Sidrolândia ficaram em R$ 54. São Gabriel do Oeste teve a maior valorização entre os municípios acompanhados, de 3,77% no período.

O comportamento pode indicar que parte dos produtores está administrando o estoque à espera de condições mais favoráveis. A decisão de vender depende da combinação entre preço, necessidade de caixa, capacidade de armazenagem, custo de transporte, demanda regional e expectativa de mercado.

Com uma produção estimada em 16,254 milhões de toneladas, o Estado terá um volume expressivo de milho para comercializar ao longo dos próximos meses. O atual porcentual de vendas significa que aproximadamente metade da safra ainda precisa encontrar comprador.

A própria estimativa de produção ainda pode sofrer ajustes. O boletim informa que levantamentos obtiveram os dados a partir de amostragens que cobrem 18% da área cultivada e que os técnicos podem revisar a produtividade e a produção à medida que o levantamento avance.

A supersafra também ajuda a explicar a cautela comercial. Conforme já informou o Correio do Estado, a projeção atual está 45,9% acima da estimativa inicial, que apontava produção de 11,139 milhões de toneladas. O aumento ocorreu principalmente pela produtividade observada nas áreas colhidas.

Etanol

Um fator que mudou a dinâmica da comercialização em Mato Grosso do Sul nos últimos anos foi o avanço da indústria de etanol de milho. Estudo divulgado recentemente pela Aprosoja-MS aponta que o Estado passou de nenhuma usina de etanol de milho em operação para três unidades, instaladas em Dourados, Sidrolândia e Maracaju. Uma quarta planta está em implantação em Nova Alvorada do Sul.

A expansão cria uma alternativa de venda dentro do Estado, reduzindo a dependência exclusiva das exportações e das fábricas de ração.

Na safra 2024/2025, Mato Grosso do Sul exportou 2 milhões de toneladas de milho, enquanto as usinas passaram a absorver uma parcela crescente da produção. Para a safra 2025/2026, o estudo da entidade estima a produção de etanol de milho no Estado em 2,128 bilhões de litros, equivalente a cerca de 20,9% da produção nacional.

Para o analista de economia da Aprosoja-MS, Linneu Borges Filho, a expansão das plantas representa uma nova alternativa de comercialização para o produtor.

“A instalação das usinas acrescenta um novo comprador de grande porte dentro do próprio Estado, criando uma terceira alternativa de comercialização para o grão”, avalia.

Além do etanol, as usinas produzem DDG ou DDGS (farelo de milho), óleo de milho e CO industrial. O DDG, subproduto utilizado principalmente na alimentação animal, também ganhou espaço nas exportações sul-mato-grossenses. Em 2025, houve produção de 1,4 milhão de toneladas, das quais houve exportação de 1,15 milhão de toneladas.

Esse modelo amplia a participação do milho na economia estadual. Além disso, dados do Ministério da Agricultura e Pecuária citados no estudo mostram um cenário importante.

Por conseguinte, o milho apresentou alta de 88,1% no Valor Bruto da Produção agropecuária de Mato Grosso do Sul. Por fim, esse resultado ocorreu em 2025, passando a representar 16,8% do VBP estadual.

Logística

A logística é outro componente que pode influenciar a escolha do produtor entre vender agora ou aguardar. De acordo com a Aprosoja-MS, cerca de 80% do transporte da produção agrícola do Estado ocorre pelas rodovias.

Em operações destinadas à exportação, o frete pode representar uma parcela relevante do valor recebido pelo produtor.

“A proximidade entre as lavouras e as indústrias pode reduzir a distância percorrida pelo milho e, consequentemente, a exposição aos custos logísticos das operações de longa distância”, analisa Borges.

Isso muda a conta de comercialização. O preço nominal da saca não é o único indicador que determina a rentabilidade. O produtor precisa considerar quanto efetivamente receberá depois de descontar frete, armazenagem, taxas e demais custos da operação.

Fonte: Aprosoja-MS