Com juros altos e inflação em alta, estímulos do governo perdem força e economia desacelera em 2026
As medidas lançadas pelo governo, que serviram como estímulos para a economia neste ano, ampliaram a renda disponível das famílias, facilitaram o acesso ao crédito e reforçaram programas de investimento, mas encontraram um ambiente macroeconômico mais adverso do que o observado em períodos anteriores, com juros altos e inflação.
Em meio à manutenção da política de valorização do salário mínimo, ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda e ao lançamento de uma série de programas de crédito e incentivo — como Gás do Povo, Brasil Soberano 2.0, reforço ao Minha Casa, Minha Vida, linhas para máquinas agrícolas, Move Brasil e novas etapas do Desenrola —, economistas avaliam que o impulso à demanda existe, mas perdeu potência diante dos juros elevados, do endividamento recorde, e do repique recente da inflação.
Endividamento limita consumo
Assim, após o Produto Interno Bruto (PIB) crescer 1,1% no primeiro trimestre de 2026, a expectativa do mercado é que a atividade tenha desempenhos bem mais modestos até o final do ano. Com altas trimestrais seguintes projetadas entre 0,1% e 0,5%, consolidando a perda de tração da economia. Com isso, o país, que colecionou elevações do PIB acima de 3% entre 2022 e 2024, e viu o ritmo desacelerar para 2,3% no ano passado, deve encerrar 2026 com alta ainda menor. Mais perto de 2%, ou abaixo disso. Mesmo com a bateria de estímulos lançada em ano eleitoral.
O quadro deve romper com padrões recentes. Em que o ritmo de crescimento da economia no ano da eleição presidencial é maior do que a média dos três anos anteriores, já que, costumeiramente, há um esforço do candidato incumbente em aquecer a economia e aumentar a popularidade do governo.
Estímulos do governo perdem força com juros altos e inflação
Para o economista da XP Investimentos, Rodolfo Margato, os estímulos lançados neste ano contribuíram para sustentar o consumo e os investimentos. Principalmente no primeiro trimestre, mas ele concorda que o impacto positivo poderia ser ainda maior, não fosse o cenário macro adverso. “Os resultados não são muito fortes porque as incertezas econômicas no Brasil e no exterior, os juros elevados e o endividamento reduzem os efeitos dessas medidas”, avalia ele.
Danyi, do Santander, acrescenta que, por mais que as linhas de crédito recentemente lançadas ajudem a sustentar a atividade, o governo direciona essas iniciativas a públicos específicos. O que torna o impacto localizado e gradual. “Em um ambiente de juros básicos elevados, parte do estímulo concedido pelo crédito direcionado é compensada pelo encarecimento das demais modalidades de financiamento”, frisa. Com mais dívidas, as famílias passaram a sentir mais o impacto dos juros altos, complementa ele.
Matheus Pizzani, economista do PicPay, segue a mesma linha. E, desse modo, ressalta que, embora o governo direcione os recentes programas de estímulo a segmentos da população com alta propensão ao consumo, fatores conjunturais limitam a demanda desses consumidores.
“Mesmo que o impulso fiscal estimado seja positivo e maior que o do ano passado, é necessário considerar o efeito deletério proveniente da parcela cada vez maior do endividamento sobre a renda das famílias. Além da inflação concentrada em itens essenciais, como combustíveis e alimentação”, frisa.
Inflação pressiona consumo e varejo
Para Margato, da XP, o repique inflacionário é outro vetor que explica, em partes, os dados recentes mais fracos da atividade doméstica, sobretudo no comércio. Conforme apontou o IBGE, as vendas no varejo ampliado acumulam três quedas consecutivas entre março e maio.
“Houve surpresa negativa em categorias como supermercados e alimentos. Tivemos o chamado ‘efeito deflator’: o aumento da inflação, em virtude do choque global de energia, acabou corroendo o poder de compra”, detalha o economista.
Outro exemplo foi verificado no mercado de trabalho, na avaliação de Margato. Ele cita que os rendimentos reais do trabalho vinham crescendo de forma consistente há bastante tempo, depois entraram em estabilização e, em maio, enfraqueceram bastante. “Na nossa avaliação, aquela disparada da inflação, em reação à guerra, explica em grande medida essa certa estabilização ou até queda na renda”, detalha.
Rafael Cardoso, economista-chefe do Daycoval, faz coro à análise. E afirma que a perda de força da economia parece ter chegado ao mercado de trabalho mais recentemente. O que marca uma mudança em relação a períodos anteriores.
Para ele, o impulso relacionado à ampliação da isenção do IR parece, de fato, ter perdido força, ao passo que outros programas, como o Move Brasil e o Desenrola, ainda não influenciaram de maneira clara os dados de atividade. O que dificulta mensurar o impacto dessas medidas.
Fonte: jbr





