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Empresas brasileiras projetam faturamento milionário na Copa do Mundo de 2026, principalmente em dias de jogos da Seleção. O torneio começa nesta quinta-feira (11). Foto: Reprodução/Gemini

MUITO ALÉM DO FUTEBOL: Empresas projetam faturamento milionário na Copa do Mundo 2026

Entenda como a Copa do Mundo de 2026 deve movimentar diferentes setores e impulsionar o faturamento das empresas no Brasil

O Mundial de seleções talvez seja um dos últimos grandes eventos capazes de sincronizar o comportamento de milhões de consumidores ao mesmo tempo. Pessoas de diferentes idades, rendas e regiões passam a reorganizar suas rotinas em torno de uma mesma agenda. Supermercados reforçam estoques, bares ampliam equipes, marcas intensificam campanhas e famílias planejam encontros para acompanhar os jogos; com isso, as empresas têm grandes chances de ampliar o faturamento na Copa do Mundo de 2026.

O fenômeno ajuda a explicar por que a Copa permanece relevante não apenas para a FIFA, mas também para empresas, varejistas e investidores. A entidade estima que a edição de 2026, a primeira realizada simultaneamente por Estados Unidos, Canadá e México, deverá gerar cerca de US$ 41 bilhões em atividade econômica global. Nos países-sede, os ganhos costumam se concentrar em infraestrutura, turismo e transporte. No Brasil, onde os jogos serão assistidos à distância, o impacto acontece de outra forma: por meio do consumo das famílias.

A Copa impulsiona o consumo no Brasil

A Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) projeta que o torneio movimentará R$ 4,32 bilhões adicionais no varejo brasileiro, um crescimento real de 6,5% em relação à Copa de 2022 e superior ao impacto registrado durante o Mundial de 2014.

Os números ajudam a explicar o otimismo das empresas em ter um grande faturamento na Copa do Mundo. Pesquisa da MindMiners mostra que 83% dos brasileiros pretendem acompanhar a competição. Mais revelador é o fato de que um em cada cinco espectadores não costuma acompanhar futebol regularmente, mas passa a fazê-lo durante a Copa. “O grande diferencial da Copa é que ela não mobiliza apenas o torcedor fanático. Ela atrai milhões de brasileiros que normalmente não acompanham futebol e passam a consumir produtos, serviços e conteúdo ligados ao torneio”, afirma Amir Somoggi, diretor da Sports Value.

Essa mobilização se traduz em consumo. Levantamento da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) e do SPC Brasil estima que 99,2 milhões de brasileiros pretendem comprar algum produto ou serviço relacionado ao Mundial. Desse modo, o gasto médio previsto é de R$ 619 por pessoa, chegando a R$ 784 entre consumidores das classes A e B.

Empresas projetam faturamento milionário na Copa do Mundo 2026

A disposição para gastar encontra respaldo em um ambiente econômico mais favorável do que o observado em edições recentes do torneio. Diferentemente de outros ciclos de expansão do consumo, desta vez o impulso tende a vir menos do crédito e mais da renda. Entre o segundo trimestre de 2022 e o primeiro trimestre de 2026, a taxa de desemprego caiu de 9,3% para 6,1%, enquanto a massa real de rendimentos avançou 28,8%. Com a inflação mais comportada, o ganho de poder de compra ajudou a sustentar o consumo mesmo em um contexto de juros elevados. Segundo Fabio Bentes, economista-chefe da CNC, a resiliência da demanda está mais associada à melhora do mercado de trabalho do que às condições de financiamento. Em outras palavras, os brasileiros chegam à Copa com maior capacidade de consumo não porque estão tomando mais crédito, mas porque estão ganhando mais.

Se o Natal continua sendo a principal data do varejo brasileiro, a Copa ocupa uma posição singular. Ela não cria apenas demanda por produtos. Cria ocasiões de consumo, sendo assim, isso é mais um motivo para as empresas do Brasil acreditarem em grande faturamento na Copa do Mundo.

Quando milhões de brasileiros consomem ao mesmo tempo

Os números ajudam a explicar por quê. Apenas 3% dos brasileiros pretendem assistir aos jogos sozinhos. Entre os demais, 77% acompanharão as partidas com familiares e 60% com amigos. Outros 86% afirmam que assistirão aos jogos em casa, enquanto uma parcela relevante pretende acompanhar as partidas em bares, restaurantes ou eventos públicos. Essa dinâmica transforma a Copa em um dos maiores catalisadores de consumo coletivo do país.

Ao contrário de outras datas comerciais, que dependem principalmente de campanhas promocionais para estimular compras, a Copa produz algo mais valioso para o varejo: coordenação. Durante algumas semanas, milhões de brasileiros passam a comer, beber, viajar, reunir-se e consumir em torno dos mesmos horários e dos mesmos eventos.

O supermercado é o verdadeiro estádio da Copa

Quando se fala nos vencedores econômicos da Copa do Mundo, a atenção costuma recair sobre televisores, patrocinadores e camisas da seleção. Mas os maiores beneficiados pelo torneio estão, na verdade, muito mais próximos da cozinha do que da sala de estar.

Segundo a CNC, hipermercados, supermercados, alimentos e bebidas deverão responder por quase R$ 3 bilhões do impacto econômico gerado pela Copa de 2026, concentrando quase 70% de todo o faturamento adicional esperado para o varejo.

A explicação passa menos pelo futebol e mais pela forma como os brasileiros assistem ao futebol. A Copa continua sendo, acima de tudo, um evento social. A maioria dos consumidores pretende acompanhar os jogos em casa, reunida com amigos e familiares, transformando as partidas em ocasiões de consumo coletivo.

É esse comportamento que faz dos supermercados uma espécie de infraestrutura invisível do torneio.

Dados da Associação Paulista de Supermercados (APAS), em parceria com a da Scanntech mostram que, durante a Copa de 2022, o ticket médio dos supermercados chegou a crescer até 69% nas duas horas que antecediam os jogos da seleção brasileira. O fluxo de consumidores também aumentou na véspera das partidas, evidenciando um padrão recorrente: antes do apito inicial, milhões de brasileiros passam primeiro pelo caixa do supermercado.

Os produtos que mais se beneficiam ajudam a contar essa história. Nos dias de jogo, a expectativa é que as vendas de churrasqueiras aumentem até 227% em comparação com um dia sem partidas. Entre os alimentos, o chamado “kit churrasco” liderou o movimento, impulsionando categorias como frango inteiro, maminha, picanha e queijo coalho.

O efeito Copa nas vendas dos supermercados

Para Felipe Queiroz, economista-chefe da APAS, o torneio continua sendo um dos principais catalisadores de vendas do varejo alimentar. “Períodos de Copa do Mundo costumam gerar incremento nas vendas do setor supermercadista. As categorias mais beneficiadas são carnes para churrasco, snacks e bebidas, produtos fortemente associados aos momentos de confraternização e ao hábito do brasileiro de assistir aos jogos em grupo”, afirma.

A entidade projeta crescimento entre 3% a 9% nas vendas durante o torneio, dependendo do desempenho da seleção brasileira. Quanto mais o Brasil avançar na competição, maior tende a ser o engajamento do consumidor e, consequentemente, o impacto sobre o varejo.

Existe ainda um fator macroeconômico favorável. Diferentemente da Copa de 2022, o torneio chega em um ambiente de desemprego mais baixo, renda real mais elevada e maior número de pessoas ocupadas. “Hoje temos uma taxa de desemprego menor, maior número de pessoas empregadas e uma renda real mais elevada do que no último Mundial. Esse conjunto de fatores fortalece a capacidade de consumo das famílias”, diz Queiroz.

Mudanças no consumo também entram em campo

A Copa também revela mudanças mais profundas nos hábitos de consumo dos brasileiros. Embora cervejas e refrigerantes continuem liderando as vendas, cresce a procura por versões sem álcool, bebidas de baixa caloria e produtos associados à saudabilidade.

“As bebidas alcoólicas continuam relevantes, mas observamos uma tendência consistente de crescimento das bebidas não alcoólicas e dos produtos ligados à saúde e bem-estar. Trata-se de uma transformação estrutural do consumo das famílias brasileiras e que também aparece durante a Copa”, afirma o economista da APAS.

Em outras palavras, a Copa continua movimentando os mesmos corredores dos supermercados. O que começa a mudar é o que os consumidores colocam dentro do carrinho.

Bares, restaurantes e a monetização do encontro

Se os supermercados capturam o consumo doméstico, bares e restaurantes capturam a socialização que o torneio produz. A Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel) estima que 52% dos estabelecimentos pretendem transmitir os jogos. Entre eles, 80% esperam aumento de faturamento e 59% projetam crescimento de até 20% nas receitas.

O dado mostra que o torneio não movimenta apenas setores específicos; ele cria ocasiões de consumo. Em um ambiente cada vez mais digitalizado, poucos eventos ainda conseguem levar milhões de pessoas a sair de casa simultaneamente para compartilhar uma experiência coletiva. “A Copa do Mundo é quase como um novo verão para bares e restaurantes. Mais da metade dos estabelecimentos pretende transmitir os jogos e a expectativa é de aumento no faturamento”, afirma José Eduardo Camargo, líder de Conteúdo e Inteligência da Abrasel.

A preparação é ampla. Mais da metade dos estabelecimentos planeja ações especiais para o período. Decoração temática, cardápios exclusivos, investimentos em telões e promoções de bebidas tornaram-se parte da estratégia para capturar a demanda gerada pelo torneio.

O calendário também ajuda. Em junho, a Copa coincide com o Dia dos Namorados e com as festas juninas. “Junho reúne três grandes motores de demanda: a Copa do Mundo, a Semana dos Namorados e as festas juninas. É um mês que promete ser muito positivo para o setor”, afirma Camargo.

Camisa verde e amarela

De acordo com a CNC, o segmento de vestuário deverá movimentar R$ 803,7 milhões durante o Mundial, tornando-se o segundo maior beneficiário da competição, atrás apenas dos supermercados, que devem concentrar mais da metade do faturamento adicional projetado para o varejo brasileiro.

O fenômeno vai além das tradicionais camisas da seleção. Em períodos de Copa, cresce a procura por artigos esportivos, roupas nas cores nacionais e produtos temáticos que permitem aos consumidores sinalizar pertencimento a um evento coletivo. Como observa Thiago Carvalho, economista da FecomercioSP, a competição cria uma demanda temporária por itens associados à identidade e à celebração, ampliando o alcance do consumo para além do universo dos torcedores habituais.

O impacto também aparece nos indicadores do comércio. A FecomercioSP estima uma expansão próxima de 3% no faturamento do varejo paulista em junho, mês historicamente influenciado pelo torneio. À primeira vista, o número pode parecer modesto. Mas o contexto importa. O varejo do estado vem registrando resultados recordes desde a reabertura da economia e encerrou 2025 com o maior faturamento da série histórica iniciada em 2008. Sobre uma base tão elevada, um crescimento adicional de 3% representa um avanço significativo.

Impactos desiguais no varejo durante os jogos

Nem todos os segmentos, porém, se beneficiam da mesma forma. Os shopping centers costumam registrar queda no fluxo de consumidores nos dias em que a seleção brasileira entra em campo. O fenômeno reflete uma simples realidade econômica: durante 90 minutos, o tempo dedicado às compras é substituído pelo entretenimento. A diferença é que, hoje, parte dessa demanda migra para o ambiente digital.

O avanço do comércio eletrônico e dos aplicativos de vendas tem permitido aos varejistas compensar parte das perdas observadas nas lojas físicas, reduzindo os efeitos negativos dos jogos sobre o faturamento.

Há ainda um componente geracional que pode reforçar o consumo nesta edição. Uma parcela crescente dos brasileiros entre 16 e 24 anos está ingressando no mercado de trabalho e participará da Copa de 2026 em condições diferentes das observadas nos torneios anteriores. Muitos terão renda própria pela primeira vez. E, para essa geração, a experiência carrega um simbolismo adicional: nenhum desses jovens viu a seleção brasileira conquistar uma Copa do Mundo. Caso a equipe avance na competição, a combinação entre entusiasmo esportivo e maior capacidade de gasto poderá gerar um impulso adicional para diversos segmentos do varejo.

Televisão e streamings

Durante décadas, a Copa do Mundo foi sinônimo de uma corrida às lojas de eletrônicos. A compra de uma televisão nova tornou-se um ritual quase tão previsível quanto a própria competição. Em 2026, porém, essa associação permanece mais como herança cultural do que como motor relevante de consumo.

Dados da CNC, com base no Google Trends, mostram que as buscas por Smart TVs cresceram 8,4% em maio na comparação com abril. O avanço sugere uma reativação sazonal da demanda, mas está longe de reproduzir o entusiasmo observado em ciclos anteriores. O interesse permanece 15,6% abaixo do registrado às vésperas da Copa de 2022 e significativamente distante dos patamares observados antes dos Mundiais de 2014 e 2018.

A desaceleração é particularmente reveladora porque ocorre em um ambiente de preços mais favorável. Segundo o IPCA-15, os televisores estão, em média, 18,9% mais baratos do que estavam há quatro anos. Em tese, a combinação de preços menores e renda em recuperação deveria estimular as vendas. Na prática, isso não aconteceu.

Os juros ajudam a explicar o fenômeno. Embora a inflação tenha perdido intensidade e o mercado de trabalho continue sustentando o consumo das famílias, o custo do crédito permanece elevado. Em um contexto de financiamento caro, consumidores tendem a adiar a renovação de bens duráveis e concentrar gastos em categorias de menor valor unitário e retorno imediato, como alimentos, bebidas e vestuário.

Eletrodomésticos e eletrônicos devem elevar o faturamento das empresas na Copa do Mundo de 2026

A projeção da própria CNC reflete essa mudança de comportamento. Eletrodomésticos e eletrônicos devem movimentar cerca de R$ 198,5 milhões durante o  período do Mundial, o equivalente a apenas 4,6% do impacto total estimado para o varejo. Trata-se de uma participação modesta para uma categoria que, em Copas anteriores, figurava entre as principais beneficiadas pelo evento.

Isso não significa ausência de demanda. Segundo a FecomercioSP, as vendas de televisores com mais de 75 polegadas chegaram a dobrar nos primeiros meses do ano. O dado sugere que parte dos consumidores de renda mais alta continua disposta a investir em experiências domésticas mais sofisticadas. Mas o impulso parece restrito a um segmento específico do mercado, e não a uma renovação disseminada do parque de televisores brasileiro.

A transformação mais profunda, contudo, não está no tamanho das telas, mas na fragmentação da audiência. A Copa de 2026 será disputada em um ambiente de mídia radicalmente diferente daquele das edições anteriores. A televisão continua relevante, mas já não monopoliza a atenção do torcedor. Smartphones, plataformas de streaming, redes sociais, influenciadores e a aplicativos disputam simultaneamente o tempo e o engajamento do público.

Pesquisa da MindMiners ilustra essa mudança. Cerca de 13% dos brasileiros afirmam que pretendem acompanhar partidas pelo celular durante deslocamentos, enquanto 18% esperam assistir aos jogos no ambiente de trabalho. Além disso, 49% acompanham notícias relacionadas ao torneio, 34% consomem análises esportivas e 20% seguem influenciadores ou criadores de conteúdo ligados ao evento.

Fonte: forbes