Em sessão tensa no STF, Cármen Lúcia lamenta clima de crise e afirma que corte falhou em transmitir tranquilidade
A ministra Cármen Lúcia, do STF, pediu ontem (15) desculpas ao povo brasileiro pelo clima de crise e tensão na sessão que decide se o ministro Alexandre de Moraes será investigado pela Polícia Federal por mensagens com Daniel Vorcaro, fundador do Banco Master. Em plenário, ela disse que o tribunal deveria transmitir tranquilidade à população, mas acabou produzindo o efeito contrário. “O Poder Judiciário existe para tranquilizar o povo, e nós geramos intranquilidade”, afirmou.
A ministra também disse estar constrangida por ver o STF concentrar as atenções do país a poucas semanas da votação. “Eu me sinto um pouco até envergonhada, presidente, de, no momento em que o Brasil está a menos de 20 dias da eleição, estarmos todos voltados a questões do Supremo”, declarou, dirigindo-se ao presidente da Corte, Edson Fachin. Ela reconheceu que parte dessas questões é grave. O primeiro turno está marcado para 4 de outubro.
Cármen Lúcia avaliou que poderia ter contribuído mais para superar a crise interna. “Eu peço, de certa maneira, desculpa ao povo brasileiro, que talvez tenha esperado de mim uma postura diferente”, disse. Segundo ela, os ministros tentaram resolver os conflitos, mas as divergências se ampliaram. “Todos nós aqui queríamos a mesma coisa, que era de tentar resolver. E as questões não foram resolvidas e foram crescendo demais.”
Cármen Lúcia defende independência dos ministros
Ela negou sofrer pressão, dentro ou fora do tribunal, para votar de determinada forma. “É preciso que as pessoas acreditem que nós temos a independência necessária para continuarmos a ser juízes”, afirmou. A ministra acrescentou que casos que envolvem diretamente o próprio tribunal exigem rigor e serenidade dos julgadores.
O pedido de desculpas veio depois de uma manhã de discussões ásperas. Moraes acusou o ministro André Mendonça de agir “a serviço de um grupo político que quis dar um golpe” e ouviu do colega a resposta “Mentira”. O decano Gilmar Mendes disse que Mendonça conduziu o caso com “viés político-eleitoral” e comparou a conduta dele a uma “relação de máfia”. Mendonça chamou Gilmar de “leviano”. O ministro Flávio Dino criticou a forma como Fachin passou a conduzir os processos e falou em risco de “tirania”.
Logo no início da sessão, Kassio Nunes Marques se declarou impedido e Dias Toffoli se declarou suspeito. Depois dos embates, o plenário passou a discutir a questão de ordem apresentada por Gilmar e Dino, que propõe suspender o julgamento, sortear um novo relator e levar a análise para o dia 23, junto com o pedido de investigação contra Mendonça.
Por fim, o julgamento avalia se o relatório da PF, produzido por ordem de Mendonça e divulgado em 1º de setembro, reúne elementos suficientes para abrir investigação contra Moraes. A Procuradoria-Geral da República (PGR) pede a anulação do procedimento.
Fonte: veja





