De acordo com observações da OMM feitas entre o final de abril e meados de maio, as temperaturas da superfície do mar já se aproximam dos limites do fenômeno. Alimentadas por águas subsuperficiais cujas temperaturas ficaram 6 °C acima da média. Esse imenso reservatório de calor injeta uma quantidade massiva de energia na atmosfera, o que altera o regime de chuvas e temperaturas globais.
Embora ainda existam incertezas sobre o pico de intensidade do fenômeno, a secretária-geral da OMM, Celeste Saulo, alertou, em comunicado, para a necessidade de o mundo se preparar para um El Niño “potencialmente forte”. Segundo ela, o fenômeno “irá exacerbar a seca e as chuvas intensas e aumentar o risco de ondas de calor tanto em terra quanto no oceano”.
Um El Niño forte é definido quando as temperaturas da superfície do leste do Pacífico ficam pelo menos 1,5 °C acima da média. A combinação desse aquecimento natural com a crise climática levou a OMM a emitir um aviso de que 2027 pode se tornar o ano mais quente já registrado na história (sim, pode superar o recorde atual estabelecido em 2024. Que também foi um ano de El Niño forte).
Os impactos práticos variam de acordo com a região do planeta, mas costumam envolver extremos. Enquanto áreas como o sul da América do Sul e partes da Ásia Central tendem a receber mais chuvas, a América Central, o norte da América do Sul e a Austrália enfrentam períodos de seca severa.
A sobreposição do El Niño com o aquecimento global e seus impactos locais
“Quando se tem um El Niño que se soma ao que as mudanças climáticas já trouxeram, os riscos são enormes”, disse o chefe do centro de clima da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Francisco Aquino, á Reuters . “Um El Niño forte pode levar exatamente ao mesmo cenário que vimos naquela época [quando enchentes tomaram o estado gaúcho]. Porque o mundo continua a aquecer e a temperatura do oceano continua a subir.”
Em outras partes do globo, as projeções também exigem preparação imediata dos governos. Na África Austral, o pesquisador sênior Izidine Pinto, do Instituto Meteorológico da Holanda, explicou que o El Niño reduz as chuvas na estação úmida. O que vai prejudicar diretamente a agricultura local e limitar a geração de energia hidrelétrica.
Por outro lado, Antonio Navarra, presidente do Centro Euro-Mediterrâneo sobre Mudanças Climáticas da Itália, destacou que as águas mais quentes no Pacífico criarão um ambiente propício para a formação de ciclones tropicais mais intensos. Já a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos EUA (NOAA) prevê uma temporada de furacões abaixo da média para o Oceano Atlântico. Devido às mudanças na circulação atmosférica.
O professor Piers Forster, da Universidade de Leeds, e o pesquisador Theodore Keeping, do Imperial College London, apontam que as anomalias geradas pelo El Niño funcionam como uma “janela para o futuro”. Segundo os especialistas, o fenômeno permite experimentar antecipadamente extremos de temperatura e chuva que, em cerca de cinco anos, poderão ser “o novo normal”.