Brasil se prepara para liderar novo ciclo comercial com China e BRICS, reforçando seu protagonismo global
Brasil deve liderar novo ciclo comercial com China e BRICS. Em meio à fragmentação geopolítica e ao avanço do protecionismo, os países emergentes ganham espaço e devem assumir um papel de protagonismo na economia global — com o Brasil ocupando posição de destaque.
Crescimento do comércio entre BRICS e Sul Global
O comércio entre os países do BRICS e o restante do Sul Global deve crescer, em média, 5,5% ao ano na próxima década. Essa é, contudo, a avaliação do estudo BRICS and the Global South: New Trade Routes in a Fragmenting World, elaborado pelo Boston Consulting Group (BCG) e obtido com exclusividade pela EXAME.
Todavia, o ritmo supera tanto o crescimento previsto para o comércio entre economias avançadas quanto a média global.
Vantagens competitivas do Brasil
“O Brasil é um produtor altamente competitivo, com laços institucionais abertos e uma diplomacia bastante atuante”, afirma Daniel Azevedo, sócio sênior do BCG e líder da prática Global Advantage no Brasil.
Segundo ele, o pragmatismo da política externa brasileira e sua capacidade de dialogar com múltiplos polos são diferenciais importantes neste momento de transição global.
Estratégia dos países emergentes
O levantamento mostra que a intensificação das relações entre países emergentes os coloca em uma posição estratégica para compensar a retração nas trocas comerciais entre China e Estados Unidos. Relação que se deteriorou ainda mais em 2025, após a imposição de tarifas pelo presidente americano, Donald Trump.
Entre os países do BRICS, o estudo destaca Brasil, Índia e África do Sul como os mais bem posicionados para liderar essa transição.
A expectativa é que essas economias exerçam um papel central nas novas rotas comerciais e logísticas que estão sendo redesenhadas para driblar tensões geopolíticas mais tradicionais. Contudo, segundo o relatório, o bloco deve ganhar protagonismo em setores estratégicos como energia, alimentos e matérias-primas.
O papel central do Brasil no comércio global
“A expectativa é que os países do BRICS, em especial Brasil, Índia e África do Sul, sejam motores de aceleração do comércio global na próxima década”, diz o estudo.
No caso brasileiro, o BCG destaca uma combinação única de vantagens comparativas. Sendo assim, uma base agrícola altamente eficiente, segurança institucional, matriz energética limpa e um mercado interno robusto.
O conjunto coloca o país como peça-chave na nova configuração global, mesmo diante do recrudescimento de políticas protecionistas.
Desafios recentes e superávit comercial
Nos últimos meses, o Brasil enfrentou uma série de barreiras às suas exportações — como as novas tarifas dos Estados Unidos, cotas de importação impostas pelo México e salvaguardas aplicadas pela China contra a carne bovina brasileira.
Ainda assim, a balança comercial brasileira encerrou 2025 com um superávit de US$ 68,3 bilhões. As exportações cresceram 3,5% em relação ao ano anterior, totalizando US$ 348,68 bilhões.
Apesar do cenário mais desafiador, o BCG enxerga espaço para expansão. “O Brasil se tornou um protagonista no jogo global de commodities, sobretudo as agrícolas. E a demanda vai continuar crescendo. O país tem escala e competitividade para atender a essa demanda”, afirma Azevedo.
Empresas brasileiras e geopolítica
Por outro lado, o BCG também aponta que as empresas brasileiras precisarão adotar uma abordagem mais geopolítica ao decidir onde produzir, exportar ou investir.
A volatilidade nas relações entre grandes potências e o surgimento de novos blocos econômicos impõem uma lógica diferente da tradicional.
“Hoje, você leva muito mais em consideração questões de resiliência da cadeia e riscos de disrupção”, afirma Daniel Azevedo, sócio sênior do BCG.
“Empresas com cadeias dependentes de poucos mercados precisam repensar sua estratégia para mitigar riscos tarifários ou logísticos.”
Integração crescente entre os BRICS
O estudo destaca ainda uma tendência de crescente integração entre os países do BRICS, mesmo sem a formalização de um acordo de livre comércio.
O fortalecimento de instituições como o Novo Banco de Desenvolvimento (antigo Banco dos BRICS), o uso de moedas locais e a intensificação de parcerias empresariais são sinais de que a cooperação entre os emergentes tende a se aprofundar.
Segundo Azevedo, essa aproximação será “mais orgânica”, com empresas explorando oportunidades em mercados emergentes e cadeias produtivas se reorganizando para se adaptar à nova realidade geoeconômica.
“Temos visto um influxo de empresas chinesas no Brasil muito maior do que no passado, assim como o início de parcerias entre empresas brasileiras e indianas”, afirma.
Fonte: exame



