Justiça dos EUA condena Meta e YouTube por causarem vício em redes sociais e prejudicarem a saúde mental de jovens
A Meta e o YouTube foram considerados culpados (25) por prejudicar uma jovem usuária e causar vício no uso de redes sociais. A decisão, que é histórica, pode abrir caminho para outros processos contra empresas do ramo.
Segundo o júri, ambas as empresas — o YouTube pertence ao Google — terão de pagar US$ 3 milhões (R$ 15,6 milhões) em indenização por danos morais e outros prejuízos. Do total, a Meta vai pagar 70% (US$ 2,1 milhões/R$ 10,9 milhões) e, o YouTube, 30% (US$ 900 mil/R$ 4,7 milhões).
A ação citava uso de recursos, como rolagem infinita e recomendações algorítmicas que, segundo ela, causavam ansiedade e depressão. Agora, o júri, composto por sete mulheres e cinco homens, vai deliberar para decidir por quais danos punitivos as big techs terão de pagar por dolo ou fraude.
Vitória histórica
- O veredito sai em um dos milhares de processos movidos por vários atores, como adolescentes e procuradores-gerais estaduais, contra Meta, YouTube, TikTok e Snap, dona do Snapchat;
- O resultado é considerado uma grande vitória para os reclamantes;
- Além disso, a decisão faz valer uma nova teoria jurídica que diz que apps de redes sociais podem causar danos pessoais;
- Isso pode influenciar outras ações similares que irão a julgamento ainda em 2026, gerando mais indenizações e forçando as big techs a modificarem seus produtos.
O novo argumento jurídico se inspira em outro similar utilizado contra as empresas de tabaco no século passado. Nele, os advogados argumentavam que os produtos dessas empresas eram viciantes e prejudicavam seus usuários.
Hoje, as empresas de mídia social têm, em linhas gerais, evitado ameaças legais invocando proteção federal que as resguarda da responsabilidade pelos conteúdos publicados por seus usuários.
Apenas TikTok e Snap chegaram a um acordo com KGM, evitando assim a exposição e mais um processo judicial. Os termos acordados não foram divulgados. O julgamento começou no mês passado e o júri levou mais de uma semana para chegar a um veredicto.
Um dos advogados de Kaley, Joseph VanZandt, afirmou que “esta é a primeira vez na história que um júri ouve depoimentos de executivos e vê documentos internos que acreditamos comprovarem que essas empresas escolheram o lucro em detrimento das crianças”.
“Discordamos respeitosamente do veredicto e estamos avaliando nossas opções legais”, afirmou um porta-voz da Meta.
O Google também afirmou discordar da decisão e que pretende recorrer. “Este caso demonstra uma incompreensão do YouTube, que é uma plataforma de streaming construída de forma responsável, e não uma rede social”, disse José Castañeda, porta-voz da big tech.
Detalhes do julgamento
- O julgamento foi realizado no Tribunal Superior de Los Angeles (EUA) e durou cerca de seis semanas;
- Durante o processo, jurados ouviram depoimentos de executivos de alto escalão da indústria de tecnologia, incluindo o diretor-executivo da Meta, Mark Zuckerberg, o chefe do Instagram, Adam Mosseri, e o vice-presidente de engenharia do YouTube, Cristos Goodrow;
- O júri deverá, agora, decidir se as empresas foram negligentes ao desenvolver e ajustar suas plataformas de forma a incentivar os usuários a passarem mais tempo nelas;
- A decisão não avaliará conteúdos específicos publicados nas redes, mas, sim, se o design e as funcionalidades dos serviços contribuíram para causar danos.
Kaley começou a usar o YouTube desde pequena
Os advogados de Kaley afirmam que a jovem começou a usar o YouTube aos seis anos e o Instagram aos nove. Segundo seu testemunho, aos dez anos ela já apresentava sintomas de depressão e comportamentos de automutilação.
Durante o julgamento, ela relatou ter desenvolvido pensamentos suicidas e afirmou que começou a se cortar como “um mecanismo de enfrentamento para lidar com a minha depressão”. Aos 13 anos, sua terapeuta diagnosticou transtorno dismórfico corporal e fobia social — condições que, segundo a jovem, estão relacionadas ao uso das plataformas.
Nas alegações finais, o advogado da autora, Mark Lanier, acusou as empresas de lucrar com a chamada “economia da atenção”. “Como é que se tornaram gigantes? É a economia da atenção. Eles fazem dinheiro com a nossa atenção… Cada segundo que [KGM] passa no YouTube ou no Instagram é um segundo que eles podem vender a um anunciante”, afirmou.
Lanier também comparou recursos das plataformas a “cavalos de Troia”. “Como é que se faz uma criança nunca deixar o celular? Isso chama-se engenharia da dependência”, disse no tribunal. “São cavalos de Troia: parecem maravilhosos, mas quando entram, tomam conta de tudo.”
Em outro momento, ele comparou o funcionamento dessas ferramentas a receber porções gratuitas de comida em um restaurante: algo que estimula as pessoas a continuar consumindo sem perceber.
Meta e YouTube são considerados culpados em caso de vício em redes sociais
Um documento interno do YouTube de 2021 questionava: “Como estamos medindo o bem-estar?” e apresentava a resposta: “Não estamos.” Outro registro afirmava: “O objetivo não é a audiência, é o vício do usuário.”




