Cenário de superávit global reduz preço do açúcar e posiciona o etanol como alternativa estratégica para o setor sucroenergético até 2027
Com o mercado internacional de açúcar em excesso, a produção de etanol pode crescer e o seu preço cair, definindo uma fase de abundância que deve redefinir as decisões estratégicas do setor sucroenergético até 2027. Projeções recentes indicam superávits sucessivos nas safras 2025/26 e 2026/27, resultado da recuperação produtiva no Brasil e da expansão da oferta em países como Índia e Tailândia.
Superávit global pressiona cotações
O efeito mais direto é a compressão das cotações nas bolsas de Nova York e Londres, que hoje embutem uma curva relativamente comportada, mas sem sinais de aperto estrutural no curto prazo.
Os contratos futuros do açúcar bruto em Nova York para março de 2027 orbitam a faixa de 15 centavos de dólar por libra-peso, patamar consideravelmente inferior aos picos observados no ciclo de escassez recente. Em Londres, o açúcar branco mantém prêmio moderado, acima de US$ 400 por tonelada, refletindo custos de refino e diferenciais logísticos, mas também sinalizando um mercado abastecido. A inclinação suave das curvas indica que o mercado precifica estabilidade com viés de pressão, não uma reversão altista sustentada.
Decisão estratégica no Centro-Sul
Para o Brasil, maior exportador global, o desafio não é apenas de preço, mas de alocação eficiente da cana. Com a flexibilidade industrial característica do Centro-Sul, a decisão entre cristalizar açúcar ou destinar matéria-prima ao etanol ganha centralidade. A conta econômica depende de três variáveis-chave: preço internacional do açúcar, valor doméstico do etanol hidratado e taxa de câmbio.
Margens mais estreitas aproximam açúcar e etanol
Os futuros de etanol hidratado na B3 para 2026 mostram níveis mais deprimidos no curto prazo, mas com recuperação projetada para 2027. Ainda assim, quando convertidos para dólar e comparados ao equivalente energético do açúcar, indicam margens relativamente próximas. Em outras palavras, o diferencial que historicamente favorece o açúcar em momentos de preços internacionais elevados hoje é mais estreito.
Etanol como válvula de escape econômica
Nesse contexto, a estratégia de ampliar o mix para etanol não é apenas uma questão de oportunidade, mas uma forma de gestão de risco. Ao reduzir a oferta exportável de açúcar, o Brasil pode contribuir marginalmente para reequilibrar o mercado internacional, ao mesmo tempo em que protege o caixa das usinas por meio da venda no mercado doméstico de combustíveis. O movimento, porém, encontra limites: demanda interna, competitividade frente à gasolina e política de preços continuam determinantes.
Câmbio e cenário macroeconômico
Há ainda um componente macroeconômico relevante. A taxa de câmbio atua como amortecedor ou amplificador das margens. Um real mais depreciado sustenta a atratividade do açúcar exportado mesmo em cenários de preço internacional mais fraco. Por outro lado, a apreciação cambial combinada ao excedente global intensifica a pressão sobre as receitas em moeda local.
Normalização exige disciplina e hedge
O horizonte até 2027, portanto, aponta menos para uma crise e mais para um ciclo de normalização após anos de volatilidade. O setor sucroenergético brasileiro entra nesse período com vantagem competitiva estrutural, mas também com a necessidade de disciplina financeira e leitura precisa de mercado. Em um ambiente de excesso de oferta, eficiência operacional e estratégia de hedge deixam de ser diferenciais e passam a ser condição de sobrevivência.
Se o excedente global persistir, o etanol tende a funcionar como válvula de escape econômica e regulatória. Não se trata de uma guinada estrutural, mas de uma calibragem contínua do mix produtivo. O que está em jogo não é apenas a rentabilidade de uma safra, mas o posicionamento estratégico de um dos setores mais relevantes da pauta exportadora brasileira diante de um novo ciclo de preços internacionais mais baixos.
Fonte: cnn



