De 2,3 milhões para 3,5 milhões de casos de câncer de mama até 2050; mortes podem chegar a 1,4 milhão por ano
O câncer de mama deve permanecer como o tumor mais comum entre mulheres nas próximas décadas — e de forma desigual, sobretudo, um novo estudo publicado na revista científica The Lancet Oncology projeta que o número de casos anuais deve saltar de 2,3 milhões em 2023 para 3,5 milhões em 2050. As mortes podem aumentar 44% no período, chegando a 1,4 milhão por ano.
Mas o crescimento da doença não será uniforme. Enquanto países de alta renda reduziram em quase 30% a taxa padronizada de mortalidade por câncer de mama desde 1990, nações de baixa renda viram essa taxa praticamente dobrar no mesmo período.
A análise reúne dados de 204 países e faz parte do Global Burden of Disease 2023, o maior levantamento epidemiológico do mundo.
Desigualdade que custa anos de vida
Embora países de baixa e média renda concentrem cerca de 27% dos novos casos globais, eles respondem por mais de 45% dos anos de vida saudável perdidos pela doença —indicador que combina morte precoce e incapacidade.
Em entrevista ao g1, a professora assistente da Universidade de Washington, pesquisadora do Institute for Health Metrics and Evaluation (IHME) e coautora sênior do estudo Lisa M. Force afirma que o dado é um sinal claro de disparidade.
Segundo ela, embora o estudo não tenha analisado individualmente cada sistema de saúde, a diferença aponta para falhas estruturais.
Países ricos reduzem mortes; países pobres avançam
A taxa de mortalidade padronizada por idade —indicador que permite comparar países com estruturas etárias diferentes— caiu quase 30% nas nações ricas nas últimas três décadas. Já em países de baixa renda, praticamente dobrou (crescimento de 99,3%).
Jonathan Kocarnik, pesquisador do IHME e coautor do estudo, também falou à reportagem. Segundo ele, múltiplos fatores devem explicar essa divergência.
Nos países de maior renda, programas organizados de rastreamento, diagnóstico precoce e acesso a terapias mais modernas ajudaram a reduzir mortes, mesmo com incidência elevada.
Casos de câncer de mama podem chegar a 3,5 milhões por ano até 2050 – Casos crescem entre mulheres mais jovens
Outro dado que chama atenção é o aumento da incidência entre mulheres de 20 a 54 anos. Desde 1990, a taxa nesse grupo subiu 29%, enquanto permaneceu relativamente estável entre mulheres com 55 anos ou mais.
O estudo não investigou as causas específicas desse aumento, mas mudanças nos padrões reprodutivos, obesidade, alterações metabólicas e maior detecção podem estar envolvidos.
Os pesquisadores estimam que 28% dos anos de vida saudável perdidos globalmente estejam associados a seis fatores de risco potencialmente evitáveis, como:
- consumo elevado de carne vermelha,
- tabagismo,
- glicemia alta,
- obesidade,
- álcool,
- sedentarismo.
Kocarnik afirma que políticas públicas voltadas a produtos reguláveis tendem a ser mais factíveis.
Ainda assim, os autores ressaltam que prevenção isolada não é suficiente. Mesmo com políticas eficazes, milhões de mulheres continuarão desenvolvendo a doença.
O estudo em números
- 2,3 milhões de casos em 2023.
- 3,5 milhões projetados para 2050.
- 764 mil mortes em 2023.
- 1,4 milhão projetadas para 2050.
- +29% de aumento em mulheres de 20 a 54 anos desde 1990.
- 28% da carga global ligada a fatores modificáveis.
Projeções e limites
Force ressalta que as projeções consideram tendências demográficas, fatores de risco e padrões históricos de mortalidade, mas não incorporam explicitamente possíveis inovações futuras em rastreamento ou tratamento.
Brasil no cenário
O Brasil ocupa posição intermediária no panorama global. Entre 1990 e 2023, a taxa padronizada de incidência aumentou 43%, enquanto a taxa padronizada de mortalidade permaneceu praticamente estável, com variação de 2,6% no período. Em 2023, o país registrou 62,3 mil novos casos e 23,9 mil mortes por câncer de mama.
Diferentemente dos países de alta renda, que reduziram a mortalidade em quase 30% nas últimas três décadas, o Brasil ainda não conseguiu converter o avanço do diagnóstico em queda consistente nas mortes.
Se as projeções globais se confirmarem e os casos continuarem a crescer até 2050, o desafio para o país deixa de ser apenas ampliar o rastreamento. Dessa forma, o ponto central passa a ser garantir que o aumento dos diagnósticos seja acompanhado por acesso rápido ao tratamento e redução das desigualdades regionais.
No cenário traçado pelo estudo, o futuro do câncer de mama não depende apenas de novas terapias. Mas da capacidade dos sistemas de saúde de fazer com que o lugar onde a mulher vive não determine suas chances de sobreviver à doença.




