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Segundo estudo da Vital Strategies, a partir de dados do Ministério da Saúde, Brasil tem maior número de mortos no trânsito em 8 anos. Foto: Divulgação/CBMDF

Brasil tem maior número de mortos no trânsito em 8 anos e Nordeste lidera pela primeira vez

Brasil tem maior número de mortos no trânsito em 8 anos e Nordeste lidera com 11.894 óbitos em 2024

Brasil tem maior número de mortos no trânsito em 8 anos e Nordeste lidera pela primeira vez. O Nordeste se tornou a região com mais mortes no trânsito no Brasil. Foram, contudo, 11.894 óbitos em 2024, contra 10.995 do Sudeste, região mais populosa do país e até então líder na mortalidade do trânsito.

As estatísticas fazem parte de um estudo realizado pela organização Vital Strategies, a partir de dados do Ministério da Saúde. A série histórica tem dados desde 2010. Por outro lado, os números de 2025 ainda não foram divulgados.

Mortes no trânsito por ano – Brasil tem maior número de mortos no trânsito em 8 anos e Nordeste lidera pela primeira vez

Série histórica

AnoCentro-OesteNordesteNorteSudesteSul
20104.44111.8533.36715.5987.585
20114.35412.0243.43315.9167.529
20124.54313.2583.60315.7207.688
20134.48812.6653.44614.7076.960
20144.61913.1963.56115.4086.996
20154.02712.1133.39412.9896.128
20163.85211.7343.34412.3696.046
20173.56910.5503.25212.0625.942
20183.4819.9662.92710.6935.588
20193.3829.5852.92610.5265.526
20203.6249.7973.12810.7385.429
20213.8289.8243.15911.2255.777
20223.8489.8413.43010.8435.932
20233.86110.6563.39311.0855.886
20244.18611.8943.91310.9956.162

No total no país, 37.150 pessoas morreram no trânsito em 2024, cerca de 6,5% a mais que os 34.881 casos do ano anterior. Todavia, o número é o maior desde 2016, quando 37.345 pessoas acabaram mortas.

A comparação entre os tamanhos das frotas regionais preocupa os especialistas. Em dezembro de 2024, o Sudeste contava com aproximadamente 59 milhões de veículos cadastrados, mais que o dobro dos 22,3 milhões do Nordeste, conforme a Senatran (Secretaria Nacional de Trânsito).

Quando se analisa a taxa de mortalidade, a região Centro-Oeste tem o maior indicador, de 24,5 mortes para cada 100 mil habitantes —a liderança já existia em anos anteriores.

Norte e Nordeste têm índices semelhantes, de 21 e 20,8 mortes por 100 mil habitantes, respectivamente. Por outro lado, com 12,4, o Sudeste conta com a menor taxa.

Onde estavam as vítimas

Em 2024

RegiãoMotocicletaAutomóvelPedestreCiclistaVeículo pesadoOutrosNão especificado
Centro-Oeste1.6131.00752520915351628
Nordeste6.1161.7151.5023522731211.815
Norte2.0724404991318838645
Sudeste3.8202.5382.0514973771261.586
Sul1.8792.1531.105360331114220

Para os responsáveis pela pesquisa, as mortes de motociclistas —condutores e passageiros— inflaram as estatísticas no Nordeste.

Conforme os dados do Ministério da Saúde, 6.116 pessoas em motos acabaram mortas em acidentes no Nordeste, número 60% maior que os 3.820 casos do Sudeste.

No Norte (53%) e no Nordeste (51,4%), mais da metade dos mortos no trânsito estavam em motos. No Sudeste, o índice foi de 34,7%.

Crescimento acelerado das mortes na última década

“Em 2010, o Nordeste tinha uma quantidade de mortes de motociclistas semelhante à do Sudeste, com cerca de 3.500 casos”, diz o mestre em engenharia de transporte Dante Rosado, coordenador do programa de segurança viária da Vital Strategies no Brasil. “Mas o Sudeste manteve o patamar e o Nordeste quase dobrou.”

Infraestrutura precária e baixa fiscalização elevam riscos

Rosado afirma que a motocicleta é um veículo inseguro e que o risco aumenta quando a infraestrutura viária é deficiente e a fiscalização de velocidade é baixa.

São do Nordeste seis das 12 rodovias classificadas como péssimas por pesquisa da CNT (Confederação Nacional dos Transportes), publicada em dezembro passado. Dessa forma, o levantamento analisou pavimento, sinalização e geometria das estradas.

Problemas também afetam áreas urbanas e rurais

O especialista da Vital Strategies destaca que o problema ocorre também nas vias urbanas e na zona rural. “É comum nas periferias você ver famílias em motos que têm capacidade para levar apenas duas pessoas.”

Governo diz adotar abordagem preventiva para reduzir acidentes

O governo Lula (PT) afirma adotar uma abordagem ampla e preventiva para enfrentar a violência no trânsito, atuando desde a formação de condutores até a fiscalização e a melhoria da infraestrutura viária.

“A estratégia combina educação, incentivo à regularização de motoristas e estímulo a comportamentos responsáveis como elementos centrais para salvar vidas e reduzir sinistros em todas as regiões do país”, afirma o Ministério dos Transportes, em nota.

Programas de regularização e incentivo ao bom condutor

A pasta cita duas ações recentes: o programa CNH Brasil, que facilita o acesso à Carteira Nacional de Habilitação, e a MP do Bom Condutor, que garante renovação automática da habilitação para motoristas sem infrações registradas nos últimos 12 meses.

“O Brasil ainda convive com um cenário em que mais de 20 milhões de pessoas dirigem sem Carteira Nacional de Habilitação. Ao trazer mais motoristas para a legalidade, a política contribui diretamente para um trânsito mais seguro”, diz o ministério.

Especialistas defendem transporte público e fiscalização rigorosa

Os especialistas ouvidos pela reportagem apontam alternativas para reduzir a letalidade. A lista inclui melhoria do transporte público —que tem perdido passageiros para as motos—, investimento em infraestrutura viária e reforço na fiscalização de velocidade e do uso de capacete.

Falta de compromisso com segurança viária, diz especialista

Para Diogo Lemos, coordenador-executivo da Iniciativa Bloomberg para Segurança Viária Global, os dados refletem escolhas estruturais de políticas públicas frágeis de trânsito.

“Tem faltado compromisso com segurança viária”, afirma. “É preciso atuação nacional para chegar ao pequeno município, com grande ação em nível estadual. Não basta investir só em asfalto, mas também em infraestrutura e fiscalização.”

Metas nacionais para reduzir mortes até 2030

Entre as políticas nacionais de segurança viária, o Ministério dos Transportes cita o Pnatrans (Plano Nacional de Redução de Mortes e Lesões no Trânsito), que propõe atuação integrada entre gestores e órgãos do Sistema Nacional de Trânsito (SNT).

A meta, contudo, é reduzir em, no mínimo, 50% o índice nacional de mortes no trânsito por grupo de habitantes até 2030, tomando como referência os dados de 2020.

Guia de gestão de velocidades e foco em motociclistas

A pasta informa ainda que a Senatran elaborou o Guia de Gestão de Velocidades no Contexto Urbano.

“A publicação reúne boas práticas nacionais e internacionais para combater o desrespeito aos limites de velocidade, definir limites adequados ao contexto das vias e promover soluções de engenharia e fiscalização compatíveis”, afirma o ministério.

Por fim, sobre as mortes em acidentes com motos, o governo cita a criação da Semana Nacional de Prevenção a Sinistros com Motociclistas, a Conferência Nacional de Segurança no Trânsito e a elaboração do Programa Nacional de Segurança de Motociclistas, que terá como base o Pnatrans. O texto deveria ter sido concluído no ano passado, mas ainda não está pronto.

Fonte: jbr