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O médico veterinário e zootecnista Leandro Cazelli Alencar, especialista em produção de alimentos na África Central, divulgou o nascimento do primeiro bezerro resultante do cruzamento entre Ankole e Nelore no Congo. Foto: Reprodução/VetAlencar

ÁFRICA: Nasce no Congo o primeiro bezerro do cruzamento entre Ankole e Nelore; vídeo

Bezerro nascido no Congo marca o primeiro cruzamento entre Ankole e Nelore e abre nova frente de observação genética na pecuária africana

A pecuária da República do Congo viveu um momento simbólico e tecnicamente relevante para a evolução dos rebanhos na África Central com o nascimento do primeiro bezerro fruto do cruzamento entre Ankole e Nelore, em um registro que pode ser considerado o primeiro desse tipo na região, unindo duas raças com histórias marcantes — uma profundamente enraizada no continente africano e outra consolidada como referência mundial em eficiência em clima tropical.

O nascimento foi divulgado por Leandro Cazelli Alencar, médico veterinário e zootecnista, especialista em produção de alimentos na África Central, e trouxe um detalhe importante: o bezerro é resultado de monta natural, utilizando um touro Nelore brasileiro, o que reforça o caráter prático e realista do teste genético realizado em condições de campo.

Mais do que a chegada de um animal ao mundo, o episódio inaugura um processo de observação técnica que pode ajudar a responder uma pergunta central para a pecuária regional: como a genética de uma raça africana extremamente adaptada se comporta ao ser combinada com uma das raças zebuínas mais melhoradas do planeta?

Ankole: a força ancestral da pecuária africana

O Ankole é uma raça africana ancestral conhecida mundialmente por seu valor histórico, cultural e produtivo em sistemas tradicionais. Por outro lado, ao longo de gerações, esse gado se consolidou por características que fazem diferença em ambientes mais limitados em estrutura e oferta de insumos.

Entre os principais pontos atribuídos ao Ankole, destacam-se:

Rusticidade extrema, suportando condições adversas com menor exigência nutricional;

Elevada tolerância ao calor, fator decisivo em regiões de clima severo;

Resistência a doenças e desafios sanitários, comuns em sistemas extensivos;

Adaptação a ambientes com poucos recursos, garantindo permanência produtiva onde outras raças sofrem mais.

Na prática, o Ankole representa muito mais do que um animal “diferente”: ele carrega identidade cultural, além de ser um símbolo de resiliência e permanência da pecuária em territórios onde o produtor precisa de animais que “aguentem o campo”.

Nelore: o zebu que virou padrão de eficiência nos trópicos

Se o Ankole carrega a ancestralidade e a sobrevivência em ambientes extremos, o Nelore carrega uma das maiores trajetórias de evolução produtiva já vistas dentro da pecuária tropical moderna.

No Brasil, a raça passou por décadas de seleção, se tornando referência quando o assunto é produzir carne em sistemas desafiadores, com previsibilidade e desempenho em escala.

Entre as características mais associadas ao Nelore, estão:

Ganho de peso competitivo em sistemas extensivos e semi-intensivos;

Boa conversão alimentar, com eficiência no aproveitamento da dieta;

Facilidade de manejo e adaptação, característica marcante dos zebuínos bem selecionados;

Previsibilidade zootécnica, ponto-chave para quem trabalha com planejamento e resultado.

Esse histórico explica por que o Nelore se tornou um dos pilares da carne bovina produzida em regiões quentes — e por que sua genética é buscada dentro e fora do Brasil.

Por que esse cruzamento chama atenção?

O cruzamento entre Ankole e Nelore não surge como uma “receita pronta”, mas como uma tentativa de responder, no campo, uma hipótese técnica:

como a adaptação profunda do Ankole pode interagir com a genética tropical melhorada do Nelore em um sistema real de produção na África Central?

Essa é a ideia central do experimento — e também o motivo pelo qual o nascimento desse bezerro tem peso além da curiosidade.

Contudo, em vez de promessas imediatas, o que existe neste momento é o início de um processo que exige:

acompanhamento do desenvolvimento do animal;

avaliação do desempenho em ganho de peso e adaptação;

observação de sanidade e resistência no ambiente local;

análises futuras sobre fertilidade e viabilidade do sistema.

Ou seja: o nascimento é o ponto de partida, não o ponto final.

O que pode ser observado a partir de agora

Mesmo com a repercussão do vídeo, é importante destacar que o resultado definitivo do cruzamento dependerá do desempenho zootécnico do bezerro ao longo do tempo.

Entre os aspectos que normalmente entram no radar nesse tipo de iniciativa, estão:

1) Desenvolvimento e crescimento em campo

Se o animal apresentará bom desenvolvimento corporal dentro das condições locais, com estabilidade mesmo em períodos mais críticos.

2) Resistência e sanidade

Uma das expectativas é observar se a resistência do Ankole, já consolidada em ambientes desafiadores, poderá se manter mesmo com a introdução da genética Nelore.

3) Eficiência produtiva

Caso o cruzamento traga um equilíbrio entre adaptação e ganho de peso, ele pode indicar caminhos para estratégias futuras — mas tudo depende de validação.

4) Viabilidade prática para produtores locais

O resultado final precisa se traduzir em um animal viável para o sistema regional, respeitando o nível de intensificação e estrutura disponíveis.

Um marco que vai além da genética

O nascimento do bezerro Ankole x Nelore também carrega um simbolismo importante: trata-se do encontro entre a ancestralidade africana e a experiência tropical construída no Brasil, sem apagar a cultura local, mas buscando complementaridade.

Mais do que a busca por produtividade a qualquer custo, o episódio reforça uma visão que vem ganhando força na pecuária moderna: sistemas sustentáveis se constroem com critério, tempo e responsabilidade, respeitando o ambiente e a realidade do campo.

Nesse sentido, o registro do nascimento representa:

Um passo de escuta e conexão entre continentes, em que a pecuária africana mantém sua identidade e, ao mesmo tempo, testa caminhos técnicos com base em seleção genética já consolidada em condições tropicais.

Nasce no Congo o primeiro bezerro do cruzamento entre Ankole e Nelore – Próximos passos devem trazer respostas aos pecuaristas do Congo

A partir de agora, o acompanhamento desse animal será essencial para transformar um “fato curioso” em um aprendizado aplicável. A pecuária, especialmente em ambientes desafiadores, depende menos de fórmulas e mais de consistência.

Em conclusão, esse primeiro nascimento não fecha um capítulo — ele abre uma linha de observação. E é justamente isso que torna o caso relevante: a construção de conhecimento real, no tempo certo, com o pé no campo.

Fonte: comprerural