Outra causa recorrente é o esforço físico intenso, que afeta especialmente atletas, militares, trabalhadores rurais e operários da construção civil. Nesses casos, o exercício prolongado em ambientes quentes gera uma produção interna de calor maior do que a capacidade do corpo de se resfriar.
O uso de roupas inadequadas também contribui para o problema, já que vestimentas pesadas, sintéticas ou que não permitem a transpiração impedem a dissipação natural do calor.
Além disso, condições médicas e o uso de certos medicamentos, como diuréticos e antidepressivos, reduzem a capacidade do organismo de lidar com altas temperaturas. Por fim, ambientes fechados e sem ventilação adequada, como carros ou salas em dias quentes, representam um risco elevado, principalmente para crianças e idosos.
Tipos e graus de hipertermia
Nem toda hipertermia se manifesta da mesma forma. Existem diferentes graus de severidade:
1. Cãibras por calor
São os sinais mais leves. Ocorrem quando há perda de sais minerais devido à transpiração excessiva. A pessoa sente dores musculares, principalmente em pernas, braços e abdômen.
2. Exaustão pelo calor
Um estágio intermediário, caracterizado por suor excessivo, fraqueza, tontura, náusea, dor de cabeça e queda de pressão arterial. É um alerta de que o corpo já está sobrecarregado.
3. Golpe de calor (heatstroke)
O grau mais grave da hipertermia. Todavia, a temperatura corporal ultrapassa os 40 °C, e o corpo perde a capacidade de suar. O indivíduo pode apresentar confusão mental, convulsões, inconsciência e risco de falência de órgãos. Esse quadro é uma emergência médica.
Sintomas da hipertermia
Identificar os sinais precoces é essencial para evitar complicações. Entre os sintomas mais comuns estão:
- Sudorese intensa (que pode desaparecer em casos graves).
- Pele avermelhada ou muito quente.
- Tontura e fraqueza.
- Náusea e vômito.
- Cãibras musculares.
- Dores de cabeça persistentes.
- Confusão mental, delírios ou convulsões.
- Batimentos cardíacos acelerados.
- Falta de ar ou respiração rápida.
Quanto mais cedo esses sintomas forem reconhecidos, maiores são as chances de evitar a progressão para o golpe de calor.
Diferença entre febre e hipertermia, nome dado quando o corpo aquece demais
Embora muita gente confunda os dois termos, febre e hipertermia não são a mesma coisa. A febre é um mecanismo de defesa natural do organismo. Quando existe uma infecção seja por vírus, bactérias ou outros agentes o corpo “ajusta” seu termostato interno, localizado no hipotálamo, para elevar a temperatura de forma controlada.
Esse aumento tem função estratégica: dificultar a multiplicação de micro-organismos e estimular o sistema imunológico. Por isso, a febre costuma ter um valor adaptativo e, em grande parte dos casos, não é perigosa por si só.
HIPERTERMIA: Veja, o que acontece quando o corpo aquece demais
A hipertermia, por outro lado, acontece quando o corpo perde a capacidade de se resfriar, geralmente devido a fatores externos como calor excessivo, esforço físico intenso ou ambientes abafados. Nesse caso, não há nenhum “ajuste interno”, mas sim uma falha no sistema de regulação térmica. Sobretudo, o aumento da temperatura não traz benefícios: ele sobrecarrega órgãos vitais, pode causar desidratação severa, danos neurológicos e até levar à morte.
Outra diferença importante é que a febre responde a medicamentos antitérmicos, como dipirona ou paracetamol, porque está relacionada a substâncias químicas chamadas pirógenos. Já a hipertermia não cede com remédios, a única forma de revertê-la é através de resfriamento físico rápido (compressas frias, ventilação e banhos) e hidratação.
Em resumo, a febre é uma reação controlada e funcional, enquanto a hipertermia é um colapso perigoso, em que o organismo perde a capacidade de manter sua própria temperatura.
Quem corre mais risco?
Embora qualquer pessoa possa sofrer hipertermia, alguns grupos estão mais vulneráveis:
- Idosos: apresentam menor capacidade de transpiração e regulação térmica.
- Crianças: seus corpos aquecem mais rápido e dissipam calor com mais dificuldade.
- Atletas e militares: treinamentos intensos em ambientes quentes aumentam drasticamente o risco.
- Trabalhadores ao ar livre: agricultores, pedreiros, garis e outros profissionais expostos ao Sol.
- Pessoas com doenças crônicas: cardíacos, hipertensos e pacientes com problemas respiratórios.
O que fazer em caso de hipertermia?
O tratamento inicial depende da gravidade, mas algumas medidas são universais:
- Remover a pessoa do ambiente quente e levá-la para um local fresco e ventilado.
- Hidratar-se com água ou bebidas isotônicas, para repor líquidos e sais minerais.
- Refrescar o corpo aplicando toalhas úmidas, borrifadores de água fria ou banhos.
- Afrouxar roupas apertadas ou retirar peças pesadas.
- Deitar a pessoa em posição confortável, com as pernas levemente elevadas.
- Buscar ajuda médica imediatamente se houver sinais de golpe de calor, como inconsciência ou confusão mental.
Prevenção: como evitar a hipertermia
Prevenir é mais eficaz do que tratar. Algumas medidas simples podem salvar vidas:
- Beba água constantemente, mesmo sem sede.
- Use roupas leves, claras e respiráveis.
- Evite exposição prolongada ao sol nos horários mais quentes (10h as 16h).
- Faça pausas frequentes durante exercícios ou trabalho ao ar livre.
- Nunca deixe crianças ou animais dentro de veículos fechados.
- Prefira ambientes ventilados ou com ar-condicionado.
Casos históricos de hipertermia
A hipertermia não é um problema novo. Ao longo das últimas décadas, diversos casos foram relatados:
Atleta de 16 anos colapsa por hipertermia (2006)
Durante um treino de futebol em pleno verão, um jovem de 16 anos sofreu um colapso causado por hipertermia. O corpo dele atingiu, contudo, temperaturas críticas, levando a confusão mental, falência de órgãos e necessidade de tratamento intensivo.
O caso foi relatado pela Mayo Clinic como exemplo extremo dos riscos do golpe de calor em esportes. Apesar da gravidade, o adolescente sobreviveu após receber resfriamento rápido, hidratação agressiva e suporte hospitalar. Esse episódio acendeu o alerta: jovens atletas, muitas vezes vistos como “indestrutíveis”, também estão vulneráveis quando a temperatura do corpo foge do controle.
Onda de calor no Canadá, 2021
Em 2021, uma onda de calor histórica atingiu o oeste da América do Norte, elevando os termômetros a mais de 49 °C em algumas regiões. Só na província de British Columbia, no Canadá, mais de 569 mortes foram atribuídas diretamente ao calor extremo, a maioria de idosos em casas sem ventilação adequada.
Muitos desses óbitos tiveram como causa a hipertermia, quando o corpo supera sua capacidade natural de resfriamento. O evento foi descrito como um dos mais mortais da história recente do país, e mostrou de forma trágica como as mudanças climáticas podem transformar o calor em uma ameaça letal.
Caso Juliana Leon, Washington, (2021)
A americana Juliana Leon morreu em 2021 após ser encontrada inconsciente dentro de um carro sem ar-condicionado, em um dia em que a temperatura ultrapassou os 42 °C no estado de Washington. A causa: hipertermia severa.
O caso se tornou emblemático porque a família entrou na Justiça contra empresas de petróleo e gás, alegando que as mudanças climáticas agravaram a onda de calor que levou à morte da jovem. Contudo, além de uma tragédia pessoal, o episódio virou símbolo do debate sobre responsabilidade corporativa e os impactos diretos do aquecimento global na saúde humana.
Com a tendência de aumento das temperaturas globais, especialistas alertam que a hipertermia se tornará um problema de saúde pública cada vez mais frequente. Hospitais, empresas e governos terão de se preparar para lidar com emergências relacionadas ao calor, especialmente em países tropicais como o Brasil.
Por fim, A hipertermia é mais do que um incômodo: é um risco real à saúde. Saber identificar os sinais, agir rapidamente e adotar medidas de prevenção pode ser a diferença entre um mal-estar temporário e uma emergência médica. Todavia, em um mundo cada vez mais quente, entender esse fenômeno e se proteger é essencial para preservar a vida.
Fonte: olhar digital