As emendas indicadas por deputados e senadores consumiram até 78,9% da verba discricionária de ministérios do governo Lula (PT) em 2025.
O maior percentual foi registrado no Ministério do Turismo, pasta comandada por indicados do centrão desde o começo do terceiro mandato de Lula. Em seguida, o Ministério do Esporte, também chefiado por um nome do mesmo grupo político, teve 65,2% da verba discricionária empenhada no ano passado para atender às emendas parlamentares.
Outras três pastas tiveram cerca de 40% dos recursos livres drenados por emendas, incluindo o Ministério da Saúde.
Saúde concentra o maior volume de recursos
O órgão comandado por Alexandre Padilha (PT) é o que executa o maior volume de emendas. Em 2025, de cerca de R$ 47,3 bilhões empenhados, mais de R$ 25,7 bilhões foram executados na Saúde. A verba geralmente é repassada para secretarias locais custearem hospitais e ambulatórios.
As emendas empenhadas em 2025 representam cerca de 21,9% do orçamento discricionário do poder Executivo, maior percentual já registrado. Em 2015, as indicações drenaram cerca de 2,5% dessa verba.
O recurso nas mãos dos parlamentares para 2026 pode subir, pois o Orçamento aprovado em dezembro pelo Congresso prevê mais de R$ 61 bilhões em emendas. Todavia, o presidente Lula ainda terá de decidir se aprova ou veta o valor.
Procurado, o Ministério do Turismo não se manifestou sobre ser a pasta com maior percentual do orçamento controlado pelo Congresso. As indicações ao órgão incluem R$ 30 milhões para apoio ao Carnaval da Bahia, além de obras de revitalização de pontos turísticos e convênios para realização de eventos.
Já o Ministério do Esporte disse que as emendas parlamentares são uma das ferramentas que permitem “tornar reais as metas de transformar a prática esportiva em uma atividade cotidiana”. “São utilizadas respeitando rigorosamente os critérios estabelecidos em lei, atendendo a todos, indistintamente”, disse.
Em 2024, os ministérios sob maior domínio das emendas foram Esporte (74% da verba discricionária) e Turismo (69% definido por parlamentares).
Operações investigam desvios de recursos
Em julho, a Polícia Federal e a CGU (Controladoria-Geral da União) deflagraram uma operação para investigar o desvio de recursos públicos das indicações parlamentares destinados à realização de eventos de esportes digitais.
O ministério comandado por André Fufuca (PP-MA) afirmou que tem atuado em “absoluta sintonia” com órgãos de controle para dar efetividade e transparência à aplicação dos recursos. No caso do Esporte, a verba das emendas é direcionada para projetos sociais que promovem aulas de futebol, além de obras para construção de ginásios, entre outras atividades.
Neste ano, o pagamento de parte das emendas ainda será obrigatório antes do período eleitoral. As indicações, porém, estarão novamente no centro dos debates sobre transparência e uso dos recursos públicos.
STF analisa constitucionalidade das emendas
Além da existência de inquéritos da Polícia Federal sobre as verbas, ainda há uma ação no STF (Supremo Tribunal Federal) que questiona sua impositividade. Sobretudo, o ministro Flávio Dino, que é relator da ação, disse no começo de dezembro ter concluído a instrução do caso e que pedirá espaço na pauta do Supremo para julgamento pelo plenário.
No mesmo evento, Dino afirmou que o tema “é um debate fundamental em um país presidencialista”, que “diz respeito à separação de Poderes, freios e contrapesos, vértice do sistema político”. “É um debate essencial e de índole constitucional. É um debate jurídico, não é um debate político”, afirmou.
Além de determinar mudanças em regras de transparência dos repasses, Dino tem autorizado operações policiais, como a realizada em dezembro e que teve como alvo Mariângela Fialek, a Tuca, assessora ligada ao ex-presidente da Câmara dos Deputados Arthur Lira (PP-AL).
O presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), tem defendido as indicações parlamentares. “Nós não temos compromisso com quem não trabalha correto com emenda. Mas eu tenho também a plena certeza de que a larga maioria dos representantes que estão na Câmara dos Deputados, os senhores deputados e deputadas federais, trabalha corretamente”, afirmou Motta em dezembro.
Desde 2015, parlamentares promoveram profundas mudanças, inclusive na Constituição, para ampliar o controle e volume das emendas. Hoje, são impositivas as indicações individuais e das bancadas estaduais.
O avanço do Congresso sobre o Orçamento se escancarou a partir de 2020, quando houve um salto de R$ 18,3 bilhões para R$ 48,5 bilhões em emendas empenhadas. Contudo, considerando valores atualizados pela inflação. A alta foi puxada pela chamada emenda do relator, que o STF declararia inconstitucional em 2022.
Emendas drenam até 80% da verba livre dos ministérios
Sob domínio do centrão, Turismo e Esportes têm maiores fatias definidas por deputados e senadores
| Órgão | Verba discricionária, em R$ | Emendas, em R$ | % |
|---|---|---|---|
| Emenda Pix* | 6.998.213.389,14 | 6.998.213.389,14 | 100% |
| Ministério do Turismo | 1.904.396.236,30 | 1.501.838.201,00 | 78,9% |
| Ministério do Esporte | 2.535.021.909,37 | 1.652.080.214,81 | 65,2% |
| Ministério da Saúde | 59.577.349.690,51 | 25.799.729.831,49 | 43,3% |
| Ministério da Agricultura e Pecuária | 4.240.525.515,05 | 1.818.036.339,88 | 42,9% |
| Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional | 9.417.762.778,78 | 3.669.270.907,49 | 39% |
| Ministério das Mulheres | 277.341.024,12 | 73.177.299,32 | 26,4% |
| Ministério da Cultura | 1.429.783.099,65 | 308.398.431,88 | 21,6% |
| Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania | 482.258.880,96 | 93.864.377,59 | 19,5% |
| Ministério do Empreendedorismo, da Microempresa e da Empresa de Pequeno Porte | 191.061.967,18 | 35.623.179,06 | 18,6% |
| Ministério da Justiça e Segurança Pública | 4.271.633.788,33 | 676.665.193,45 | 15,8% |
| Ministério da Pesca e Aquicultura | 208.806.291,44 | 29.670.101,87 | 14,2% |
| Ministério das Cidades | 12.707.778.677,28 | 1.349.293.856,70 | 10,6% |
| Ministério da Igualdade Racial | 165.405.416,01 | 15.943.360,79 | 9,6% |
| Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome | 10.090.474.697,72 | 829.961.861,77 | 8,2% |
| Ministério do Trabalho e Emprego | 861.563.338,17 | 66.833.671,70 | 7,8% |
| Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima | 1.959.890.190,12 | 103.006.768,37 | 5,3% |
| Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar | 2.596.069.243,11 | 125.299.471,16 | 4,8% |
| Ministério da Educação | 33.713.523.356,38 | 1.606.578.218,74 | 4,8% |
| Ministério das Comunicações | 1.019.879.983,08 | 22.667.937,48 | 2,2% |
| Ministério dos Povos Indígenas | 582.187.031,34 | 10.710.078,18 | 1,8% |
| Ministério da Defesa | 14.264.637.080,17 | 215.765.844,17 | 1,5% |
| Ministério de Portos e Aeroportos | 1.352.249.903,90 | 20.189.091,82 | 1,5% |
| Presidência da República | 2.515.162.943,76 | 35.035.937,36 | 1,4% |
| Advocacia-Geral da União | 552.260.082,88 | 7.308.337,58 | 1,3% |
| Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços | 839.377.217,15 | 8.076.896,64 | 1% |
| Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação | 10.243.313.263,49 | 97.854.919,91 | 1% |
| Ministério dos Transportes | 15.203.413.195,64 | 134.275.138,26 | 0,9% |
| Ministério de Minas e Energia | 892.913.520,33 | 858.692,46 | 0,1% |
| Ministério das Relações Exteriores | 2.534.426.903,94 | 1.635.847,16 | 0,1% |
| Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos | 1.273.229.592,98 | 195.744,93 | 0% |
| Ministério da Previdência Social | 2.291.480.358,96 | 90.000,00 | 0% |
| Outros órgãos | 8.794.339.305,45 | 0,00 | 0% |
| Total | 215.987.729.872,70 | 47.308.149.142,16 | 21,9%
|
Críticas de Lula ao controle do Congresso
Durante a última campanha para presidente, Lula se referiu à distribuição de verba com baixa transparência como “o maior esquema de corrupção da atualidade”, “orçamento secreto” e “bolsolão”.
No começo de dezembro, o presidente voltou a criticar o volume de verba definida pelo Congresso. “Acho que o fato de o Congresso Nacional sequestrar 50% do Orçamento da União é um grave erro histórico. Mas você só vai acabar com isso quando mudar as pessoas que governam e que aprovam isso”, declarou.
O atual governo, porém, manteve nomes do centrão no comando de pastas que servem como canais de escoamento das emendas, como a estatal Codevasf e o Ministério do Esporte.
Fonte: jbr



