Exaustão no mercado de trabalho e críticas à escala 6×1 tendem a se tornar um dos principais vetores de decisão do eleitorado na eleição de 2026, segundo análise da Quaest
A escala 6×1 e o cansaço do país devem pautar a eleição de 2026, diz Felipe Nunes, da Quaest
Nove “tribos” e um país dividido em identidades
No livro, Nunes descreve o Brasil a partir de nove perfis identitários. Sobretudo, com valores e preferências políticas distintas: conservadores cristãos (27%), dependentes do Estado (23%), agro (13%), progressistas (11%), militantes de esquerda (7%), empresários (6%), liberais sociais (5%), empreendedores individuais (5%) e extrema direita (3%). Segundo ele, o objetivo foi ir além das segmentações tradicionais e identificar bolhas de valores e atitudes. “Eu peguei toda essa bateria de valores que a gente estudou, atitudes e preferências e rodei uma análise estatística que me deu quais são as bolhas, as tribos que a gente vive”, afirma.
O cientista político sustenta que, mesmo em um ambiente de forte polarização, existem pontos de convergência que atravessam os grupos. Para ele, a religiosidade representa o primeiro eixo de união. “O brasileiro acredita muito em Deus, independentemente da sua religião”, diz. O segundo eixo envolve a importância atribuída à família, em uma definição que, segundo o pesquisador, vem se ampliando. “O que define família para o brasileiro é o amor, mais do que o laço sanguíneo”, afirma.
Agro, consumo e símbolos de pertencimento
Um dos recortes que mais chamam atenção na tipologia apresentada envolve a consolidação do “agro” como a terceira maior identidade, com 13% dos brasileiros. Nunes afirma que a homogeneidade do grupo não se limita à atividade econômica, mas se estende a padrões culturais e de consumo. “O agro hoje tem um modo de se comportar, tem consumo muito parecido. O tipo de carro que ele compra, o tipo de comida que ele gosta, o churrasco é muito importante, o tipo de bebida, a cerveja”, explica.
Jovens da periferia e a frustração que vira ressentimento
Ao tratar dos empreendedores individuais, descritos como filhos das classes D e E, Nunes aponta um sentimento de expectativa rompida que pode influenciar escolhas políticas em 2026. Ele relata que esse público viu políticas públicas beneficiarem suas famílias, mas não percebeu a mesma ascensão prometida a partir do esforço individual e do estudo. “Esse público de empreendedor individual tem uma frustração muito grande, porque a ele foi prometida uma melhora depois da universidade e essa grande expectativa produziu neles uma frustração gigantesca”, afirma. Em seguida, completa: “Essa frustração, para alguns, acabou se transformando em ressentimento. E esse ressentimento afasta esse público”.
Segundo Nunes, esse deslocamento ajuda a explicar por que parte desse segmento passa a rejeitar a ideia do Estado como solução e migra para valores ligados à iniciativa individual. “Eles acabaram passando a acreditar que o Estado não é o solucionador do problema”, diz.
“A eleição de 2026 vai ser uma eleição sobre o mercado de trabalho e a escala 6×1”
Para o pesquisador, o tema do trabalho tende a funcionar como eixo organizador da próxima disputa, justamente por condensar o mal-estar social. Em uma das passagens centrais da entrevista, ele afirma: “Pouca gente se deu conta de que a eleição de 2026 vai ser uma eleição sobre o mercado de trabalho. O Brasil está cansado”. Nunes descreve uma realidade de múltiplas ocupações, renda insuficiente e ampliação do desejo por flexibilidade. “As pessoas estão muito cansadas, trabalhando demais, frustradas e querendo uma vida mais flexível. Por isso, a escala 6×1 é um debate que, na minha visão, vai ser fundamental para a eleição de 26”, afirma.
Por outro lado, Nunes também vincula o tema a pressões distintas sobre homens e mulheres. Ao falar das mulheres, ele reforça o peso da dupla ou tripla jornada. “Para as mulheres que, como eu disse aqui, têm que cuidar da casa, cuidar da família, ir trabalhar, flexibilidade é importantíssimo”, afirma. Ao tratar da expectativa social que recai sobre as brasileiras, ele resume: “há uma palavra que define bem o que se espera das mulheres no Brasil: coragem. Coragem ao quadrado”.
Segurança pública: país “punitivista”, mas não “armamentista”
O pesquisador afirma que o medo atua como um fator com potencial de reorganizar o voto e pressionar por respostas mais duras do Estado. Sem que isso signifique, necessariamente, apoio à liberação ampla de armas. “O Brasil, por exemplo, é um país punitivista do ponto de vista da violência”, diz. Ao mesmo tempo, ele ressalta: “Mas nós não somos um país armamentista. A gente não acredita que a solução para os problemas da violência está em armar a população de maneira generalizada”.
Nunes também avalia que, caso o eleitor chegue às urnas inseguro, tende a votar por mudança. “Quanto mais inseguro o eleitor for, mais ele vai buscar outro tipo de postura, uma postura mais forte, de mais combate a essa dinâmica”, afirma. Ele observa ainda que a preocupação com a violência ultrapassa fronteiras ideológicas e atinge até regiões onde Lula costuma ter maior força. “Mesmo na base eleitoral do Lula, onde ele é mais forte, que é a região Nordeste, a preocupação com a violência chegou em níveis muito altos”, diz.
O “supermercado” como termômetro de continuidade ou mudança
Além do trabalho e da segurança, Nunes aponta um terceiro eixo decisivo para o humor eleitoral: a comida. “O supermercado”, resume, ao explicar que o custo dos alimentos pesa desproporcionalmente sobre os mais pobres. “Boa parte da renda dos brasileiros é utilizada para comprar alimentos. Isso é ainda mais forte quanto mais pobre se é”, afirma. Na lógica apresentada por ele, preços controlados aliviam o orçamento e aumentam a chance de avaliação positiva do governo; preços altos apertam o caixa e alimentam o mau-humor nas urnas.
Redes sociais, WhatsApp e a “ilusão do conhecimento”
No campo informacional, Nunes descreve um país dividido em bolhas que se retroalimentam. “As redes são fundamentais para entender esse novo processo de disputa informacional”, afirma, ao defender que elas tendem menos a deslocar pessoas de um lado para outro e mais a reforçar convicções já existentes.
Ele também relata um dado preocupante sobre desinformação e autopercepção. “42% dos brasileiros não acertaram nenhuma dessas quatro questões. Quase metade dos brasileiros não tinha ideia do que estava acontecendo à sua volta”, afirma. Em seguida, destaca o descompasso entre desconhecimento e confiança. “70% dos brasileiros superestima o que sabe”, diz. Para o cientista político, essa combinação amplia conflitos e radicaliza o debate público, ao alimentar o que ele chama de “ilusão do conhecimento”.
Terceira via e outsiders: demanda existe, mas o sistema limita
Ao discutir a possibilidade de uma alternativa fora dos polos, Nunes afirma que existe “demanda social” por uma terceira via, mas que a mecânica de dois turnos tende a empurrar o eleitor ao voto estratégico. “Quando a gente tem um jogo que é jogado em dois turnos, o eleitor é chamado, de alguma maneira, a fazer um movimento estratégico”, afirma. Na mesma linha, ele diz ver espaço para candidaturas de fora da política tradicional, impulsionadas pela fadiga com o sistema. “Eu vejo, sim, espaço para um outsider. Exatamente por esse cansaço, exatamente por essa fadiga da visão política”, conclui.
Ao final, Nunes sustenta que a eleição de 2026 deve condensar dilemas centrais do Brasil contemporâneo — trabalho, renda, proteção social, medo e custo de vida — com disputas que não se limitam à polarização clássica, mas atravessam identidades, valores e expectativas sobre o futuro do país.



